Domingo passado resolvi sentar em um bar na pracinha central de Pacoti, simpática e agradável cidade no maciço de Baturité, formação de serra que ainda preserva vegetação densa e bonita e cujo clima dá a fugidia lembrança de outonos do outro hemisfério.
A praça, um ajuntamento de ideias desconexas que parece ter passado longe dos olhos de urbanistas ou paisagistas, pouco arborizada, cimentada e asfaltada, é o ponto de encontro de todos. Aos domingos, a feira armada em barracas de lona, é a reprodução minimalista desses mercados ambulantes espalhados pelo Brasil afora que conseguem juntar a venda de cds e dvds piratas, relógios, rádios, sons, bonés, camisas e tênis falsificados, roupas para todos os sexos e gostos e outras bugigangas mais. Só não vi produtos regionais, nada que tivesse a cara da cidade, da criatividade e da artesania local.
Vi dois ou três “guardas de trânsito” locais, sem fardas, mas com crachás, walkie talks e apitos, comandando o trânsito para “riba” e para baixo, com gesticulações fortes, sopros poderosos e a ajuda de cones de plásticos. Vi uma banda de música, sobre um palanque armado, tocando dobrados, músicas populares e até o Hino Nacional, mas ninguém ouvia ou se comovia, pois só em tempo de Copa do Mundo é que o nosso hino é cantado, as lágrimas afloram e o patriotismo toma cerveja.
Automóveis, motos, grandes camionetas com apenas o guiador, carros de bombeiros e da polícia, ônibus imensos e caminhões paus-de-arara carregando gente e carga, disputavam o espaço das ruas estreitas já atravancadas por veículos e motos parados de qualquer jeito e decidiam se iam para “riba” ou para baixo, pois o que queriam mesmo era passar pela praça, verem e serem vistos, com buzinações tonitruantes.
Falei que estava sentado em um bar. Era um bar simples, mesas de compensado sem toalhas e apinhado de gente. Por lá, além dos nativos, magistrados, secretários de estado, empresários, radialistas, jornalistas, professores universitários e sitiantes que passam os fins-de-semana pelas redondezas. E o cardápio oferecia duas opções: panelada e buchada com cerveja e cachaça em robustos copos de vidro, ao mesmo tempo em que bêbados contumazes pediam uma “bicada” e se escoravam nos portais. Até que surgiu uma jovem nervosa, jaqueta de marca de grife amarrada sobre os quadris. Ela trazia cópias do retrato, impressas em folhas de papel, de um moço universitário de Brasília que ali se perdera duas noites antes. Ele tinha 19 anos, alto, bem-apessoado, sofria de depressão e disse para a turma de parentes e amigos que iria ao banheiro. Ninguém mais o viu e eu fiquei me indagando por que teria desaparecido. Teria sido pelo barulho ensurdecedor que incomodara o seu pensar despovoado? Seria por conta de mal de amores que o tornava diverso do grupo? Ou o que teria sido? Terá aparecido?
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 23/07/2006

