O Brasil assumiu, desde o início deste século, uma posição de protagonista. Palavra de origem latina (proto: primeiro, principal; agonista: lutador, competidor) que, em linhas gerais, significa ser o dono do seu próprio destino, não se deixar levar a reboque de outrem. Na cinematografia é o ator principal. Na vida real, há muitos protagonistas, sejam pessoas, empresas, governantes, países, grupo de países e blocos econômicos. O que se viu no governo Lula foi uma ação intensiva de divulgação do Brasil, e o jeito sem cerimônia do então presidente da República de viajar, intensamente, ao redor do mundo, para dizer que estávamos preparados para a luta ingente de ser considerado um novo protagonista no concerto das nações.
Segunda-feira, passada, lua cheia, em cenário armado, no interior do Parque do Cocó, um país inovou ao se mostrar protagonista, não apenas com a presença, em Fortaleza, de Xi Jimping, nome ocidentalizado do líder atual da República da China, que veio para o 6º Encontro do Brics, entidade ainda não institucionalizada que, como sabem, reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, países de culturas díspares e que veem a necessidade de formar um bloco multilateral para, em sinergia, propiciar aumento das suas relações de negócios e firmarem posição como protagonistas da história do século 21. De início sedimentam acordo para a criação de um banco de desenvolvimento.
Não é sobre o Brics que desejo falar,mas da forma singular como a China vem se mostrando ao ocidente, além da expansão da sua indústria e da consequente exportação, mas através da divulgação de sua cultura ancestral e contemporânea, na arte e na música. A China trouxe uma orquestra da província de Zhe Jiang, na sua costa Leste, composta de 78 integrantes com um “Concerto de Sinfonia”, e escolheu repertório diversificado para o grande público que ali compareceu de forma descontraída, sentando-se no gramado, ouvindo de forma respeitosa o que, grande parte, talvez nem entendesse.
Ao fim e ao cabo de mais de uma hora de concerto, seguindo um programa preestabelecido que incluía músicas chinesas, romenas e alemãs, com destaque para a composição do 4º andamento da Quarta Sinfonia do russo Tchaikovsky, a orquestra foi ovacionada de pé. O maestro Iu Hai, sempre sorridente, retomou a batuta e foi em frente, com músicas extra pauta, inclusive brasileiras, para alegria de crianças que, soltas, rolavam no declive verde sob os olhos complacentes de seus pais.
Essa celebração faz parte do 40º aniversário das relações diplomáticas entre China e Brasil, e se repetiu, na noite de ontem, em Brasília. Como se vê, de forma diferente, os chineses adaptaram a política de boa vizinhança praticada pelos EEUU no curso da 2ª Guerra Mundial e no pós-guerra, com uma diferença: a distância imensa que nos separa desse novo protagonista que se espalha pelo mundo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 18/07/2014.

