PROUST: A BUSCA DO TEMPO E A ERA DO INSTANTE – Jornal O Estado

“Quem não conhece a verdade não passa de um tolo; mas quem a conhece e a chama de mentira é um criminoso!” – Bertold Brecht (1898-1956), escritor alemão.
O escritor francês Marcel Proust (1871-1922) foi sempre mais comentado que lido. Consideravam-no, à sua época, diletante e presunçoso. Antes da chegada do século XXI, exato no ano 2000, citada pelo jornalista brasileiro Francisco Quinteiro Pires, surge a resenha “Marcel Proust: A Life”, escrita por William C. Carter, professor da Universidade Yale, EEUU. Nessa história consta que o jornal francês “Le Temps”, em novembro de 1913, entrevistou Proust sobre a sua obra ‘’No Caminho de Swan”. Em resposta, Proust teria dito: “Minha obra está dominada pela distinção entre a memória voluntária e a memória involuntária”. Segundo ele, a voluntária “é uma memória da inteligência e dos olhos”. Por outro lado, a involuntária pretende ser o objetivo da preocupação, pois foge à razão e possui “a marca da autenticidade”.
Carter, o resenhador, acrescenta que Proust cresceu em mundo sem energia elétrica, telefone ou automóvel, mas “até 1910 ele testemunhou a invenção da energia elétrica, do telefone, do automóvel, do cinema, do avião e do metrô de Paris”. Um choque. A esse conjunto de invenções, Proust chamou de “era da velocidade”.
Agora, 2014, estamos vivendo uma era em que as múltiplas faces da Internet, por suas ditas mídias sociais, falam a verdade e/ou propagam mentiras, ilações, opiniões desencontradas, dados, filmetes e imagens que são repetidos “ad nauseam”. É difícil para muitos fazer a distinção entre a realidade, o mito e as inserções com objetivo de fantasiar, louvar ou denegrir. Vencem, nesse páreo, os que forem mais enfáticos, tiverem mais seguidores ou propagadores do que seja verdade, mentira, criação ou mera especulação. O que escrevi acima se lastreia – em parte – em observações do jornalista Quinteiro Pires, hoje, residente nos EEUU, para o “Eu&Cultura”.
Para ele: “Pensadores contemporâneos começaram a questionar, entre os efeitos de uma personalidade construída em sites como Facebook, Twitter e Instagram, estaria uma suposta ameaça à espontaneidade das relações humanas”. Dessa forma, as pessoas passariam a agir como “personas”, livres para criarem uma identidade que as projetam para os outros como dessemelhantes de suas próprias naturezas e viveriam em um mundo paralelo ao mundo real que rejeitam, pretendem esquecer, desprezam ou que as angustiam.
Nestes tempos que nos aproximam das eleições de 05 de outubro, é bom ficar atento ao que o controverso Marcel Proust classificou como os dois tipos de memórias que usamos para formar um juízo de valor: a voluntária (a da Inteligência) e a involuntária, a que foge da razão.
Não vivemos mais na “era da velocidade”, mas, ao meu pensar, na “era do instante”, aquela a se sobrepor, segundo a segundo, nas diversas mídias sociais e plataformas, aos fatos anteriores e a (des) focar o que pode ser passado como plausível e aceito pelos que não fazem da inteligência e da razão os seus guias. Refletir dá trabalho.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 19/09/2014

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