QUE BICHO É ESTE? – Jornal O Estado

Ontem levei uma surra de um pequeno objeto. Olhei para ele, empolgado. Design perfeito, palavras no vídeo, luz, cor e som. Toquei-o e pensei que seríamos íntimos. Que nada. Ele me deu um baile. Estranhamo-nos, de cara. Quanto mais tocava, mais ele me irritava. Apertava aqui, ali e acolá e tudo saía ao contrário do que estava imaginando ou esperando. Teve um instante em que quase o agredia. Pensei: tenha calma, João. E recomecei a mexer em suas funções. Ele era a própria pós-modernidade. Continha televisão, rádio FM, câmera fotográfica de alta resolução, som estéreo, proteção contra roubo, tela colorida, pen drive, entendia muitas línguas, recebia e passava e-mails, tocadores Mp3/Mp4 e capacidade de memória expandida. E eu havia colocado o “chip” do meu antigo e simples celular nele. Eu só queria um telefone. Um que não estivesse arranhado, velhusco, descascado, como o meu. E agora, não conseguia que o novo me obedecesse. Aflito, procurei retirar o tal chip. E o pior, confesso a vocês, é que não sabia mais fazê-lo. Até pedi ajuda. Dois cegos na mesma porta. Estava desconectado do mundo e pensei se estava dependente ou aliviado do celular. Algumas pessoas optam por não pedir ou dar o seu número a ninguém. Assim, são pouco importunadas. Mas, vez por outra, alguém descobre o número e invade o espaço da privacidade sofrida. Não perguntam onde você está, se pode ou se gostaria de falar. Vão entrando no que lhes interessa. Voltando ao bicho, estava aliviado, desconectado, livre de chamadas. Custei a dormir. Sonhei com Graham Bell. Imaginava ser ele o inventor do telefone. Perguntei-lhe se aquela geringonça – o bicho estava no sonho – era telefone. Descrevi-o como pude. Bell olhou, coçou a cabeça escocesa, e pediu-me para procurar Antonio Meucci. Acordei. Não consegui reatar o sonho. Fui ao computador e descobri que Meucci, italiano, fora o inventor e vendera a patente do telefone a Bell. Será que a coisa que tinha às mãos era um mero telefone? Não queria fotografar, passar e-mails, usar pen drive, ouvir rádio ou tv. Meucci já morreu. Só queria o meu velho celular.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/01/2010.

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