Era uma vez um menino batizado, crismado, primeira comunhão, missas e, no bolso esquerdo, um terço de madeira. Comungava às primeiras sextas-feiras do mês. Entrou na universidade, convidou um doutor em Teologia para pregar a Páscoa. Empós, encontrou-se com o padre. Viu-o de roupas civis: o que houve? Pedi licença e questiono a minha fé. Deus existe?
Cheguei a Roma no fim do Concílio Vaticano II. Com a ajuda de parente bispo, penetrei no conclave. Sentei-me e escutei. Eles adequavam a Igreja às mudanças. Aboliram o latim e a batina. Os padres, frente aos fiéis, celebrariam a missa no vernáculo de país e mais. Voltei outras vezes a Roma e sempre me espantou a pompa das cerimônias, a riqueza dos museus e a ridícula guarda suíça. João XXIII morre e surge Ratzinger.
Estava a zapear a TV e parei numa estação americana. Ratzinger debatia sobre filosofia e fé. Impressionou-me sua cultura e não me surpreendi com a escolha. Fora lastreada na sua longa história Vaticana, na “Intelligentzia”, chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, a julgar questões intricadas, desde a Inquisição.
Ratzinger eleito mostrou-se cauteloso, em meio às intrigas. O Vaticano é uma Monarquia absoluta. Os fiéis não esqueceram João XXIII e em dos primeiros atos dele foi abrir a canonização, logo acontecida. Pedofilia, escândalos financeiros, divisões e intrigas entre a hierarquia. Elas debilitaram sua saúde e culminaram, após a prisão de seu mordomo, com o calculado gesto de renúncia. Sugestão: Vamos unir a Igreja de Roma à Anglicana e abolir o celibato?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/02/2013.

