“A doença nasce em silêncio. Seja pela ação de germes, ou substâncias nocivas, ou por processos endógenos, sutis alterações processam-se nas células: é a enfermidade em marcha. Quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente. Em algum momento, algo acontecerá, uma dor, falta de ar, palpitação, hemorragia”. Este texto é do escritor e médico Moacyr Scliar no livro “A Paixão Transformada”. Régis Jucá sabia e cuidava disso com a competência de cirurgião, senso de humanidade e o convencimento de terapeuta.
Régis Jucá saía da UFC quando eu ainda estava entrando. Lá, os que fizeram política universitária, tinham conhecimento da trajetória do Régis no Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina e no Diretório Central dos Estudantes. Fomos a geração seguinte e nos espelhamos naqueles que nos tinham precedido. Régis era um deles.
Depois, de uma forma espontânea e meio anárquica, formamos há mais de 30 anos, sob os auspícios de Edson Queiroz, o que hoje se chama de “Turma dos Sábados”. Régis foi um dos seus fundadores e expoentes, embora essa turma, por natureza, seja iconoclasta. Ele era assíduo, referência, polêmico e um hábil contador de histórias. Falava de suas viagens, seus cursos e professores, de figuras humanas, entre outras, de Juscelino e Edson.
Leitor voraz, inclusive de jornais, um dia bem cedo me liga e fala que havia acabado de ler uma crônica que eu escrevera: “Hospitais, ante-sala da morte”. Nela eu reclamava da falta de pronto atendimento – no hospital em que Régis pontificava – levando à morte por hemorragia interna o comum amigo Afrânio. Régis lamentou, mas justificou o fato por ser um fim-de-semana próximo do carnaval em que a emergência fica a cargo de médicos residentes.
Recentemente, sua mulher Bia e as filhas do Régis, Juliana, Raquel e Laura resolveram editar, tendo como organizadores Natalício Barroso e Luiz Falcão, o livro “Com O Coração Nas Mãos” que contém escritos seus: crônicas, perfis de personalidades, reflexões, política, temas ligados à saúde, educação e publicações científicas. E o fizeram muito bem. O lançamento foi no começo de uma noite nos jardins da Reitoria da Universidade do Ceará e lá se podia ver familiares, amigos, colegas e pacientes, todos lembrados de histórias vividas com o Régis, semelhantes ou diferentes das que contei acima. Mas, o que me chamou a atenção nessa noite foi o clima cordial, ameno, sem faltar o uísque que o Régis bebia como uma bebida que deve ser tomada lentamente para gerar a espiritualidade que seus ingredientes provocam.
Não é minha intenção fazer uma resenha de .“Com o coração nas mãos”, outros já o fizeram. Mas dizer que é um livro bem feito, gostoso de ler, pela forma simples, direta e limpa com que Régis cuidava das palavras, como se a arte de escrever tivesse que, necessariamente, incluir preparação, assepsia, técnica, a operação em si da escrita e o seus escritos encerrassem com efeitos positivos, como o resultado de uma boa intervenção cirúrgica, tais quais centenas das que ele fez.
Esta crônica, que reproduz alguns trechos por mim já escritos, deveria ter sido publicada no dia 22 de setembro passado, um dia após o 2o. aniversário de morte do Régis mas só sai agora, na Semana do Médico, véspera das eleições – política e medicina eram duas das paixões dele – para o segundo turno e me valho do próprio Régis, com trecho de seu artigo “O Brasil se acabando e nós brincando…” para finaliza-la: “Uma nação, ou mesmo uma cidade, será melhor ou pior conforme mais certa ou mais errada for a nossa decisão de hoje. Eleição é coisa séria, não é brincadeira, não é quermesse nem final de campeonato de futebol. E foi de brincadeira e brincadeira que chegamos onde estamos e pelos nossos erros, poderíamos já estar pior”.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 20/10/2006.

