REGISTRO PESSOAL – Jornal O Estado

Para quem não sabe, sou canhoto. Nasci em época que ser canhoto era estranho. A escola obrigava a escrever com a destra. Teimei a continuar a escrever com a mão esquerda.
No tempo das cadeiras individuais, no colégio e nas faculdades que fiz, sofria para, ao ficar de lado, escrever de minha forma arrevesada. Assim, o Brasil se livrou do péssimo candidato a pianista e a violonista. Estudei até, deu em nada. Mesmo com boa vontade, não passei do sofrível. Ser canhoto me ceifou – penso – de qualquer habilidade manual, inclusive nos esportes. Jogando vôlei, quebrei o pulso da mão esquerda e nunca passei de reserva em peladas de futebol. Era um destrambelhado, pé torto. Um Dunga, digamos. Resolvi pintar. Vaidoso, nunca tive uma aula. Vi museus, parei defronte de quadros famosos. Achava que poderia começar. Comprei telas, tintas e pincéis. Só consegui fazer um quadro. Emoldurei-o e escondi de todos, inclusive da minha vista. Está em qualquer canto, um dia o reencontrarei e, certamente, o mandarei para o devido lugar. Há algum tempo, dei-me à pachorra de fotografar. Comecei com fotos em preto e branco, muito cedo das manhãs, clicando pessoas dormindo na rua, bêbados, prostitutas, ambulantes com suas carroças, mendigos e os desvalidos em geral. Não consegui fotografar guerras como o Sebastião Salgado. Pretendia produzir fotos-denúncia, mas a quem mostrar? Até tentei, no caso específico da praia onde morava. Os governantes sabem de tudo e tudo fica na mesma. Recebi ameaças. Parei. Em 2008, meio sem querer, voltei ao extremo-oriente. Já havia estado lá uma vez. Fizera o circuito dos vários países importantes. Prometera não voltar, pois longe é um lugar que existe: a Ásia. Queimei a língua. Fui especificamente à China para não fazer nada. Só olhar. Não só a China, na grande Beijing ou Pequim, como a chamamos. Havia acontecido a Olimpíada e eu, como canhoto, cheguei logo depois da festa de encerramento. E vi tudo, mas isto aqui não é roteiro turístico. É revelação pessoal. Então, fui ao interior da China, à China profunda que, na verdade, não era tão profunda assim. Parei em Dalian, uma grande cidade com seis milhões de habitantes, entre paupérrimos, pois as suas misérias eram visíveis nas casas que, mesmo escondidas, desvendei. Vi também pobres, remediados e ricos de carros importados reluzentes com jeito bem ocidentais, quase americanos, não fossem os olhos. Mas, isso tem em todos os lugares. O queria ver não estava ali. Tive que sair da cidade e dar uma grande circular por seus arredores. Era uma região serrana, o dia se finava, o sol era de um vermelho esmaecido como o comunismo que hoje praticam por lá e eu via o Mar da China lá abaixo. Parei em uma espécie de promontório. Admirei a confissão da folhagem verdejante no outono asiático, vi pagodes ao longe e os meus olhos pediam um registro daquela beleza de intensa tranquilidade. Foi então que tive a coragem de usar uma máquina comum, dessas para analfabeto no idioma inventado por Louis Daguerre. Mirei e apertei no obturador. O resultado está na foto em anexo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/07/2010.

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