RETRATO DE DORIAN

Era pouco mais que uma criança quando conheci Dorian Sampaio. Foi em dia festivo na casa dos meus pais e me puseram para falar. Ao terminar, ele me disse: esse menino leva jeito. Pouco tempo depois, fui com ele assistir a reuniões do centro cultural Humberto de Campos, se me lembro bem, congregando intelectuais e afins aos domingos pela manhã.
No início dos anos 70, já era metido a empresário, quando Dorian me procurou para falar de um projeto que tinha em mente. Disse-me, em linhas gerais, da idéia de montar um anuário que contaria a história do Ceará e do seu povo, a exemplo do que já fizera Waldery Uchoa. Ele acertou comigo que desenvolveria o projeto por um determinado valor, independente de eu aceitar ou não participar. Dito e feito, depois de algum tempo, ele me entrega uma pasta (que lhe devolvi como relíquia em 1998) com todo o delineamento do que viria a ser o “Anuário do Ceará”. Falei que a idéia era muito boa, mas fugia do foco do meu negócio, paguei e lhe desejei boa sorte.
O Anuário do Ceará foi o sucesso que todos conhecem, mas Dorian tinha uma questão não resolvida com a política. Retirado de cena no auge da sua brilhante carreira parlamentar, Dorian desejou voltar e o fez de forma estóica. Lutando com a palavra e o caráter que Deus lhe deu. Não foi o bastante. Saiu tão digno quanto entrou, vencendo em Fortaleza, elogiado e respeitado até por adversários.
No ano passado, ele, Demócrito Dummar e eu, nos reunimos para repensar o Anuário do Ceará. Fizemos algumas reuniões, mas o assunto não evoluiu. A par de tudo isso e, ao longo de todos esses anos, existia uma amizade respeitosa e francamente cordial. Na edição comemorativa dos 25 anos do Anuário ele me pediu para fazer uma espécie de prefácio, o que escrevi com prazer.
No dia 25 passado, uma quinta-feira à noite, o vi sentado na platéia por ocasião do lançamento do excelente livro de Juarez Leitão, “Sábado, Estação de Viver”. Estava quieto, ouvindo atentamente as falas de seu ex-sócio Lustosa da Costa e a do próprio Juarez. Sábado, 27, dia em que dormiu para acordar na posteridade, o vi no começo da tarde em roda de amigos que freqüentamos há anos. Ele me deu um abraço e falou que havia recortado o artigo que escrevi sobre “Dona Margarida”.
No dia seguinte, Edison Silva me liga informando da morte do Dorian. Fui imediatamente ao velório e olhei fixo para o seu rosto inanimado e lembrei do então vereador da “Vila São José” no Jacarecanga, onde montou uma prefeitura paralela para denunciar os desmandos do prefeito de então. Dorian, algumas horas depois, voltaria para pertinho da “Vila São José” e nesse instante deve ter reiniciado uma nova luta no ainda, para nós, insondável mundo eterno.
Lembro que no dia do lançamento do livro do Juarez, que contém, entre outros, um retrato do Dorian, falei ao Gil Vicente Bezerra que andava relendo Oscar Wilde. Ao chegar em casa, naquela noite, abri “O retrato de Dorian Gray” e agora repasso um dos trechos que sublinhei: “sou de parecer que se o homem vivesse plena e totalmente a sua vida, desse forma a todo sentimento, expressão a toda idéia, realidade a todo devaneio…creio que o mundo receberia um novo impulso eufórico.”
Esse era o retrato de Dorian.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 04/06/2000.

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