Os que foram alunos, nos cursos de bacharelado e pós-graduação, da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, a partir da década de 60, certamente concordarão comigo: o prof. Carlos Roberto Martins Rodrigues foi, sem dúvida, o mais comunicativo entre todos os mestres daquela escola centenária. A par disso, ele é um dos expoentes do Direito Administrativo em nosso país, mercê de sua formação acadêmica distinguida. Roberto, quando criança, sofreu uma grave desidratação, que já matara seus dois irmãos mais velhos, Maria Taís e Carlos Eduardo. Foi salvo pela alimentação da avó materna e a promessa de d. Zilda, sua mãe, de nunca mais usar joias, incluída aí a aliança de casamento. O menino, são e salvo, estava pronto para, ao chegar à adolescência, estudar piano e pedalar a sua bicicleta alemã Singer com buzina personalizada. Por outro lado, o aluno foi um dos integrantes da turma pioneira do Instituto Lourenço Filho e teve a ousadia de fundar, com outros jovens, o jornal “Fortaleza Repórter”, a Liga Exemplar Joaquim Albano – em desagravo ao mestre que o ensinara a falar francês precocemente – a Associação Mirim de Imprensa, o Circo Mascote e a “Beautiful Virgínia Band”, em homenagem à primeira namorada. Seu pai, o advogado, professor de Direito Civil e dep. federal José Martins Rodrigues, resolveu levá-lo para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde atuava, com brilhantismo, na Câmara dos Deputados. O jovem Roberto encantou-se com a cidade. Ia aos ensaios da Mangueira, admirava a música de Ary Barroso e as jogadas de Heleno de Freitas, o Pelé da época. Andava pela ainda brejeira Copacabana e aprendia a dançar na Avenida Danças e Brasil Danças, ao pé do Palácio Monroe, na Av. Rio Branco. Ao mesmo tempo, ingressava, de forma brilhante, na Faculdade Nacional de Direito, tendo sido aluno de Evaristo de Moraes Filho, Hermes Lima, Haroldo Valadão, Afonso Arinos e Mattos Peixoto, dentre outros. Depois de formado, tornou-se amigo e seguidor de Hely Lopes Meireles, a quem se deve a sistematização do Direito Administrativo, como ciência, no Brasil. Volta ao Ceará, e funda o Clube dos Advogados, nos moldes ingleses. Um clube de classe. Em seguida, é eleito o mais jovem presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Secção do Ceará, tendo exercido três mandatos. A par disso, ingressa nos quadros de professores da Faculdade de Direito da UFC, da qual é Mestre e Doutor, e na Procuradoria Geral da República, ocupando a sua direção por longo tempo. Hoje, o dr. Roberto, advogado de nomeada e professor consagrado, coordena o Curso de Direito de uma faculdade privada, sem esquecer de amar, como sempre o fez, conversar com aprumo e ouvir suas músicas preferidas, entre elas o jazz americano. Este perfil, a destempo feito, é um pálido reparo à sua involuntária não inclusão no meu livro “Gente que Conta”. Acontece que o andamento e o desencontro tramaram contra nós. Seu nome foi um dos primeiros a ser lembrado, a Internet não cuidou disso. Roberto concorda com Cervantes ao entender que o amor, se é amor, é sempre verdadeiro. Para ele a vida é um traço de união do nascimento com a morte. Uma ponte que se consegue atravessar com trabalho, otimismo, bom humor, amor, afetividade, realizações úteis, prazer, fé no bem e na felicidade. Esta é uma pálida aquarela da vida cintilante desse cearense que honra o Ceará, dignifica a advocacia e enobrece o nosso magistério superior. Roberto é Gente que Conta.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/07/2011

