Quem conhece a filmografia de Orson Welles sabe que o criador de “Cidadão Kane” era um ser estranho, mercê de toda a sua genialidade. Revi, nestes dias, Cidadão Kane e, em seguida, li o livro “Orson Welles no Ceará”, do crítico de cinema Firmino Holanda.Com maestria, Holanda narra a filmagem não concluída de “It’s all true” (É tudo verdade) e, especialmente, descreve, como agradável cronista, a ambiência da época. O livro é bom no começo, meio e fim.
O filme Cidadão Kane, para os que ainda não ouviram falar sobre ele ou não tiveram a ventura de assisti-lo, trata, em rápidas pinceladas, da história de um menino pobre que, ao receber uma inesperada herança, sai da província, estuda, cresce e vira um magnata da imprensa, casa, tem uma amante, tenta a carreira política, sofre chantagem e cai em desgraça. Durante as suas filmagens, Orson Welles, que tinha como referência a vida do empresário jornalístico William Randolph Hearst, monta um jogo psicológico forte e, por conta disso, padeceu deste todas as formas de restrições, ameaças e bloqueios, só concluindo-as graças à tenacidade que os seus 24 anos lhe conferia. Foi acusado até de comunista, por atacar um ícone do capitalismo americano e mostrar a sua decadência. Era 1941, os Estados Unidos entrava na II ª Guerra Mundial e o patriotismo americano, como acontece em épocas de crise, estava exacerbado.
Talvez para provar não ser comunista, Orson Welles, fazendo parte da “política da boa vizinhança” encetada pelos Estados Unidos, veio filmar no Brasil no ano seguinte, 1942, o que seria o filme não concluído, “Tudo é verdade”. Filmou o carnaval de 42 no Rio de Janeiro e veio ao Ceará, motivado por uma reportagem da revista “Time” sobre a aventura de quatro jangadeiros cearenses que viajaram mar afora, sem bússola e sem mapa, de Fortaleza ao Rio de Janeiro. Welles desceu no campo de pouso do Alto da Balança, hospedou-se no Excelsior Hotel, enturmou-se no Jangada Clube, um bucólico bangalô na Praia de Iracema à beira mar, onde parte da elite de Fortaleza se encontrava, e reuniu os heróis do mar para ouvir a narrativa de sua epopeia.
Conviveu com ricos, mas tomou-se de amores pelos pescadores que, àquela época, aportavam suas jangadas na Praia de Iracema, especialmente Manoel Jacaré, o líder do grupo do raid destemido. Manoel e os seus companheiros voltaram ao Rio para, com Welles, filmarem a chegada triunfal (já acontecida) à antiga capital da República. Um barco – com os equipamentos e o pessoal de filmagem – puxava a jangada. O cabo soltou-se, a jangada virou e Manoel Jacaré desapareceu para sempre na baía da Guanabara.
Volto ao Cidadão Kane para falar de um pequeno trenó que o personagem principal, quando criança, usava para deslizar no gelo e cujo nome, Rosebud, é uma espécie de enigma até o final do filme. Agora, uma ideai me ocorreu: seria a jangada uma espécie de trenó dos mares a fazer uma ligação no imaginário de Welles? Ou o mastro que teria batido na cabeça de Manoel Jacaré seria a antevisão da marca da maldade de Welles?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/03/2002.

