Frio forte, desejo de jantar, tomar vinho tinto, e as pedras centenárias da Via della Madonna dei Monti não refletiam a luz dos postes. Do lado direito, 94, confundi um estúdio com um bistrô. Entrei. Era, na verdade, um “happening” com acepipes do pintor Emiliano. Cercado de amigos e sem clientes. Quadros grandes, alegres, cores fortes resguardadas por vidros e uma técnica exposta sem reserva. Pinta em pexiglass, aquele tipo de plástico transparente que cobre comidas, não o laminado. Depois, fixa o pexiglass no vidro. Fica bonito e quem quiser olhar pode ver no info@emilianoesposto.com. Nada é mais segredo neste mundo de ruas tortas que desvelam ao seu final, além da Igreja da Madonna com mendigo à porta, o ajuntamento de jovens e adultos no largo onde se vê música, restaurantes e a presença discreta dos carabineiros, cada qual na sua na noite invernosa. As pessoas parecem alegres e obedecem à precedência na frente do toldo do restaurante que avança na praça. Ali assento.
Na volta, porta quase cerrada da igreja, ainda dou uma olhada furtiva e vejo santos nos altares central e laterais. Cem passadas depois, o que me deixou os parcos cabelos arrepiados foi o Ice Club, todo branco, na noite fria e carregada. Era, de fato, um bar geladão. Um iceberg. Paredes, tetos , bancos e copos de gelo. Quarenta toneladas de gelo, imagine. Na portaria há grossos capotes para a entrada no frigorífico humano, a menos cinco graus Celsius, com música e bebidas, vodca, especialmente. Coisa de esquimó. Logo chego ao princípio da rua, a desnudar o Coliseu iluminado, logo à frente. Do lado direito, ao fundo, o Arco de Constantino (século IV) e o Monumento – pela unificação da Itália – a Vittorio Emanuelle II, do século passado, também conhecido por “bolo de noiva”, por ser todo branco, construído em mármore. Isso é o que vislumbro, olhando para a esquerda e a direita, da entrada da Via della Madonna, do teto de um velho/antigo hotel onde fico. Não tenho jeito para guia turístico.
No Coliseu, todos sabem, após a morte de Jesus, cristãos passaram a ser sacrificados. Francisco vai mergulhando na história romana e resolve conhecê-lo de perto. Sabe do local do holocausto. Viu-o, agora, com vagar, e ficou chocado. As multidões, italianos e turistas, o protegem e o aplaudem. A Itália, vide Roma, recebeu de Dante Alighieri, em sua obra “Purgatório, escrita há setecentos anos, o seguinte comentário: “Ah, Itália, escrava, abrigo de dor,/ nau sem timoneiro em grande tempestade,/ não senhora de províncias, mas de bordel!”.
Hoje, na contínua e profunda crise de governança, a Itália alegra-se com os curiosos turistas católicos a aplaudir Francisco, um Papa solitário e atônito, depois da conversa com Ratzinger e das notórias divisões internas da burocracia do Vaticano. Ela, a tudo governa. Saber a língua da terra não o torna nativo. Ter sido eleito – com sua idade – em meio a tantos arranjos, o faz achegar-se ao povo. Socorre-se dos peregrinos, mais a cercá-lo por curiosidade, que ouvi-lo nas prédicas nas manifestações públicas. Teme os Césares de sotainas vermelhas. A Madonna do Monte fica de olho.
João Soares Neto
CRONISTA
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/04/2013.

