É próprio do ser humano viver de rupturas. Aliás, as rupturas são o cerne do crescimento e progresso, sejam eles pessoais ou coletivos. Todo ato de romper, criar é, em sua essência, uma desobediência, uma quebra com o estabelecido, a procura do novo, mesmo que o novo seja até a reencarnação do velho.
Neste momento que estamos vivendo no mundo, no Brasil e em nossas vidas pessoais tão plenas de problemas e carentes de soluções, é chegada a hora das rupturas, de cada um entender que a mesmice, seja ela coletiva ou pessoal, não nos levará a nada, a não ser a vala comum da mediocridade, onde todos são enterrados como cadáveres desconhecidos ou indigentes mentais.
É preciso ter a coragem de ousar, de olhar o dia, a vida, as pessoas e o mundo que nos cerca como algo a ser modificado, a partir de nossas informações, conhecimentos e valores que, necessariamente, sofreram abalos sísmicos desde os nossos nascimentos. Os valores e a cultura que nos foram passados por nossos ancestrais, pais e mestres, embora essenciais à nossa formação, já não são mais referências pétreas. Até porque a velocidade das transformações ocorreu em todos os campos do conhecimento humano. O certo, o justo e o correto são decorrência de valores em mutação e isto causa um desconforto tanto na “Terra de Marlboro” como aqui na pátria do “levar vantagem em tudo”. Até os amorais e imorais, naturalmente infensos a questões existenciais, estão sendo atingidos por essa aura benfazeja.
Francis Fukuyama, um polêmico professor americano da Universidade George Mason, nos Estados Unidos, já havia escrito há mais de uma década que estávamos no fim da História. Segundo ele, as nações tenderiam a ser democracias liberais e, quando atingissem esse fim, a História terminaria. Iria acabar por falta de objetivo, a ausência da luta pelo domínio, a conquista e o reconhecimento, próprios do ser humano.
Agora, passados dez anos, ele nos propõe uma nova leitura sobre o mesmo tema. Com o seu novo livro, a “Grande Ruptura” (The Great Disruption), ele fala das grandes crises ocorridas nas décadas de 60 a inícios da de 90, como o aumento de criminalidade, divórcios, filhos naturais e, do outro lado, o descrédito pelas instituições sociais e a perda da confiança pessoal.
Citando Fukuyama, Anthony Gottlieb, do “The NYT Book Review”, destaca esse trecho de seu livro: “os seres humanos sempre criam regras morais pelas quais se pautam, em parte porque a natureza os fez assim e em parte pela busca de satisfação de seus próprios interesses”. Gottlieb deseja, na verdade, criticar. E o faz com veemência: “esse é um fenômeno para o qual Fukuyama oferece apenas respostas insatisfatórias”. Ele insiste que nossa recuperação da Grande Ruptura não teve nada de automático.
Eu concordo com Gottlieb. Creio que, rompendo, nós todos estamos crescendo e avançando e isto faz a diferença. Hoje, cada um está, a seu modo, vivendo a sua ruptura continuada, descobrindo novos caminhos, fazendo releituras de suas histórias e tentando obter respostas. E isso é bom.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 17/10/1999.

