SÁBADO E RAMOS – Diário do Nordeste

Foi em 1965 a primeira visita. Jovem, consegui entrar nos meandros do Concílio Vaticano II. Sai triste. Agora, sábado, 23, voltei. Entrei na Basílica, passando pelo grande átrio repleto de cadeiras de plástico preto desbotado, áreas divididas e protegidas por grades para conter multidões. O altar externo sendo montado.
Um helicóptero sai do Vaticano para o Castelo Gandolfo. Bergoglio e Ratzinger conversaram a sós. Usavam branco. São prisioneiros da burocracia dos cardeais sedimentados em postos chaves. Sabem disso. Francisco I,não por acaso, tem um só pulmão, 76, depende do labirinto.
Reví, com vagar, o esplendor das artes nas paredes e tetos, os mármores, os altares laterais e ao subsolo onde fica o mausoléu dos papas. Não vi modéstia alguma. Essa a razão da tristeza de 1965. Ela voltara. Confessionários multilíngues, vazios. Ao sair por porta lateral, à esquerda, vi o ridículo da guarda suíça, fardas multicores e calções em balão. Passo pelo Castelo de Santo Ângelo, cruzo a ponte e chego à apinhada Via Del Corso. Berlusconi fizera comício na Praça do Povo. Paro e entro num “pub” irlandês. Medito.
Amanhece, saio rápido para a cerimônia do Domingo de Ramos. Trânsito caótico. Entro na cidadela repleta, 250 mil. Poucas bandeiras brasileiras. Francisco I, na sua homilia, fala de “não nos roubarem a esperança” e, depois, na festa da Juventude “na Rio”. Grito só: Rio. Depois, sobe no carro aberto. Acena, abençoa, e beija crianças, deficientes e idosos. Volta ao claustro. Minha esperança: a Igreja deve sair de Roma para resistir. Que tal a África?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/03/2013

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