Acordo com a unha do dedão do pé esquerdo quebrada, um pouco de sangue e o estrago feito. A saída foi procurar onde dar um jeito naquilo. Alguém me diz que os salões de beleza não costumam, talvez por falta de freguesia, abrir às segundas pela manhã. Felizmente, uma alma caridosa me indica um que abriria às 8:00 horas e lá se fui eu com o meu dedão do pé inchado.
Salão moderno, piso de granito, luzes, espelhos em profusão, ar condicionado e tudo já funcionando àquela hora da manhã. Pedirão meu nome, dei João. Pediram o sobrenome e falei o Soares. Abriram uma nota de serviço e entreguei o meu pé a umas dessas moças do subúrbio distante, mas que estava ali com alegria nos olhos, equilibrando o corpo não tão pequeno em uma cadeirinha minúscula. Não me sinto bem colocando o pé no colo de alguém como se fora um paxá. Era o jeito.
A gerente me entregou uma revista. Fiquei feliz, não era “Caras”. Era “Dinheiro”, talvez tenha sido o meu jeito circunspecto. Os olhos estavam livres. Vi ser o único homem do local. Procurei me concentrar na revista, mas de vez em quando passeava os olhos pelo salão espelhado e via quase tudo em dose dupla.
Eram muitas as mulheres cuidando da beleza. De todas as idades. Umas pintavam os cabelos, outras tinham máscaras na face, algumas ficavam embaixo do secador e poucas já estavam nos arremates finais, o penteado, ou a maquiagem, ou ambos. Uma jovem não largava o celular, colocou o que soube ser “papelotes” e parecia o “Arc”, aquele marciano da “Veja” que acha estranho as coisas por aqui. Eu também.
Dizem que ser mulher e ficar calada é impossível. Imaginem em um salão de beleza. Elas falam, gesticulam, andam, tomam cafezinho, fumam e agora com a praga do celular aí que a coisa complica. Uma senhora discutia a nova cor dos cabelos a potes, revistas e, mesmo sem ouvir o diálogo, parece-me pretender sair parecida com Catherine Deneuve ou a Sharon Stone.
Tinha até gente conhecida. Uma amiga da minha faixa de idade, recém separada, veio falar comigo com o cabelo já feito e disse do amor novo surgido em meio a uma solenidade. Estava feliz e parecia fazer fé nessa nova relação amorosa com alguém também separado. E lá se foi ela com a sua esperança para o sol do dia. Toda nos trinques, naturalmente.
Depois de cortes, mertiolate, unguentos, água quente e mãos competentes sai de lá com o pé bem melhor. Saí, mas voltei. Esquecera o celular e ao voltar, vi que novas mulheres estavam chegando e saindo com aquele jeito de ser tão especial que transforma a vaidade de um pecado capital em uma necessidade básica no comportamento feminino.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 20/02/2000.

