Nasci em Fortaleza em meio à Segunda Guerra sob o esplendor do sol, mas as noites, conta a minha mãe, eram escuras. Havia blecaute e medo. Fiz a Primeira Comunhão, estudante do Farias Brito, no ano em que o Brasil perdeu a Copa do Mundo, no Maracanã. Participei de desfiles no Dia da Pátria. Palanques em frente à Igreja do Carmo. Reuníamo-nos na Av. Dom Manuel, dobrando à direita na Av. Duque de Caxias. Íamos com fardas engomadas e pensávamos que as garotas, no cordão de isolamento, estavam olhando só para nós. Depois da dispersão, na Rua General Sampaio, voltava esbaforido para casa, na Rua Major Facundo. Frequentei a Biblioteca Pública, na Rua Sólon Pinheiro, por anos seguidos. Lia tudo o que encontrava e foi lá onde encadernei os meus diários, em oficina no seu subsolo. Ao lado da biblioteca, assisti, por anos, a aulas de inglês no IBEU e, no mesmo quarteirão, ouvia ensaios de música clássica no conservatório que ali funcionava. Já taludo, mudamo-nos para uma casa nova, estilo “funcional”, com coberta aparente de concreto armado, no Bairro de Fátima, tão novo quanto a Igreja de que lhe deu o nome. Ouvia Missa aos domingos no Colégio N. Sra. das Graças, na Mons. Otávio de Castro, a mesma rua onde também moravam o prof. Lauro de Oliveira Lima, dra. Maria de Lourdes Martins Rodrigues, sr. José Machado, cunhado do Alcides Pinto, e o sr. João Colares, pai da cantora Amelinha. Chegou o tempo de servir ao Exército. Fui parar na Av. Bezerra de Menezes, no CPOR, que tinha como vizinhos o prof. Waldemar de Alcântara, do lado direito, e, do esquerdo, o tio Pio Saraiva Leão, pai do Pedro. Entrei em duas faculdades. Administração (manhã), que se iniciava na esquina da Rua Jaime Benévolo com Duque de Caxias, frente ao Colégio Cearense, onde também estudei e, Direito (noite), na Praça Clóvis Beviláqua. Às tardes, ia escrever para o Correio do Ceará, na Rua Senador Pompeu. Mais iria contar, mas o espaço final é para dizer que hoje é dia de saudar os 283 anos desta cidade de Fortaleza, crescida sem planejamento, prostituída nas esquinas, emaranhada em trânsito caótico em bairros nobres e pobres, paupérrimas áreas de risco, eivada de insegurança, bares e medo, mas amada. Salve.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 12/04/2009.

