SAM, MARLBORO E… – Diário do Nordeste

Estou voltando da terra que foi do Tio Sam, depois virou de Marlboro e, agora, é do Obama. Fui neste fevereiro de inverno de frio e inferno de crise. Andei por cidades diferentes. Conversei com gente, os do povo, alguns que se acham importantes, estrangeiros de passagem e os que ficaram como imigrantes para obter o Green Card ou a Cidadania. Depois da euforia da posse, veio a ressaca da realidade, essa que passa pelos bolsos, invade casas, mexe com o dia-a-dia das empresas que reduzem pessoal e faz ficar no ar a dualidade cruel entre a esperança e o medo. Estava lá quando o pacotão do Obama foi aprovado, mas não escassearam críticas por conta da “falta de objetividade”. A Bolsa de Nova Iorque reagiu com queda alta. Obama, sem se importar com a “marola”, fez sua primeira viagem ao exterior. Foi ao vizinho Canadá, uma espécie de Estados Unidos passado a limpo, onde frustrou crianças de uma escola que se prepararam para recebê-lo. Tempo e segurança. Deu entrevistas, desconversou sobre protecionismo e voltou com o termômetro político ligado. Eu, sem que ele soubesse, fiz minhas pesquisas, inclusive com motoristas de táxi formados em engenharia e administração, mas que estavam na direção de banheiras comedoras de gasolina. Foram unânimes em dizer que a América está em recessão e que não sabem do futuro, mas torcem pelo Presidente. Fiz voos internos e pude ver executivos com notebooks abertos, quase todos de cenho franzido. Ninguém ria e as roupas eram pesadas, quiçá pelo inverno. As lojas, sejam as de mall, como eles chamam os shoppings por aqui, e as de rua estão, quase todas, em liquidação com até 50% de desconto. Algumas fazem isso como truque, mas a maioria está, de verdade, querendo vender a preços reduzidos para não fechar, Parece haver um esboço de mudança social, sente-se isso nos contatos, na mídia e surge, se não estou enganado, mais compaixão e respeito pelas pessoas, pois a cor diferente da pele ou da raça já não mais implica em submissão ou orgulho. A grande casa branca da Av. Pensilvânia, 1600, em Washington, está com caras novas, inclusive uma sogra, mas as ideias precisam ainda ficar mais claras.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/03/2009.

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