SAUDADE QUE NÃO É METÁFORA – Jornal O Estado

Amanhã, 30 de setembro, é dia dos santos Jerônimo, que sabia rezar e escrever, e Gregório, um iluminista ou iluminado. E também era o dia em que nasceu uma não-santa, uma mulher pequena e grande, valente e medrosa, paradoxalmente, vinda a este mundo para enriquecê-lo com os filhos que gerou em 54 meses, ou quatro anos e meio de barriga, em que deixava seu corpo adelgaçado se transformar em outras vidas.
Amanhã, 30 de setembro, estaria marcando tempo uma mulher nascida e criada por estas paragens, miúda, ampla, silente e palradora. Essa mulher que andou, já madura, pelas terras de Camões e Cervantes, as que ficam na outra margem do Atlântico Sul e lá foi se aconchegar e aninhar-se aos seus. Essa que navegou pelas águas turvas dos rios da Amazônia, onde seus pontos de lágrimas clareavam e rastreavam a escuridão próxima dos corrimões do seu navio. Espantou-nos, com arte delicada, cuidada e misteriosa, em noite de fogueiras, com as suas iluminuras. Era simples, até tomar da caneta,
Amanhã, 30 de setembro, será dia de louvação a uma mulher que, após filhos criados, recolheu seus bordados, com lágrimas vertidas ou não, exorcizou desdita, tomou da caneta como se fora colher de pedreiro, e construiu uma casa, tijolo a palavra, arquitetada pela memória ancestral ou recente, em meios a arquétipos, desilusões, devaneios, lembranças, realidades, brumas, mistérios, dramas e nela gravou seu ferro invisível: NC. E, quiçá espantada pelo que criara, deixou-a afundar.
Amanhã, 30 de setembro, será dia de exaltar a vida de quem se fez viva na juventude da maturidade em meio a missivas trocadas, guardadas, e soube dar sentido ao que era sentido, sem ser permitido. Deixou-se enlevar, guiar pelo odor da tinta e a goma dos selos que tiravam o bolor do seu existir. Transformando-se e transformada. Essa vida, transformada, transformadora, quis ser acesa em alguma paragem, em dimensão outra, e nos dar a sensação da presença-não-presença e do enlevo-desengano, obra do que se sente e não se explica. E hoje, amanhã e sempre, será parte do húmus da terra, fazendo brotar quimeras, em meio à saudade que não é metáfora, e não está fora, pende dentro, em lugar inacessível aos olhos alheios.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/09/2006.

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