Será chatice escrever sobre segurança pública e privada? Não bastarão os programas policiais de rádio e televisão? Não valerão os pronunciamentos de políticos eleitos por programas policiais? E as páginas de revistas e alguns jornais que mostram, com crueza, o problema? Por saber – como todo brasileiro – de casos de violência contra pessoas indefesas, é que resolvi pesquisar o assunto e passar a vocês que saem de casa com medo da insegurança das ruas e, ao voltar, trancam portas e janelas como se estivéssemos em guerra. Imagine uma cidade qualquer de 100 mil habitantes. Pela média brasileira atual, nela morrerão, a cada ano, 50 pessoas por assassinato, sem falar nos mortos do trânsito caótico, apesar da lei seca e da vigilância eletrônica com gorda arrecadação. Em 1980, a média era de 11,4. Os dados são do Centro de Estudos de Segurança Pública da Faculdade Cândido Mendes, RJ. Existem, registrados na Coordenação de Controle da Segurança Privada da Polícia Federal, 431.600 vigilantes particulares. Esse número é bem maior do que o efetivo de 320.400 militares do Exército, Marinha e Aeronáutica. Todas as polícias militares brasileiras, reunidas, têm um total de 411.900 integrantes, muitos deles em funções administrativas e de saúde. Como se vê, a segurança privada supera, também, o total de policiais. Os abastados blindam seus carros, e já são 60 mil no Brasil. Em 1999, eram apenas 400. Acontece que ninguém mora em carro. É preciso sair, arriscar-se profissionalmente e na vida real e isso faz com que 2.668 firmas dividam o mercado de segurança patrimonial, pessoal, escolta e transportes de valores. São números oficiais, sem contar os seguranças próprios da indústria, comércio, serviços, condomínios e residências. Em 1948, George Orwell, escreveu o livro ‘1984’. Nessa distopia, ele previa que as pessoas seriam vigiadas por câmeras e um ‘Big Brother (daí o nome do programa de TV) saberia de tudo. Pois bem, em 2006, só na Grande São Paulo, existiam 720 mil câmeras públicas e privadas. E ainda, em razão de sequestros, há pessoas que implantam chips’ em seus corpos, para monitoramento. Onde vamos parar?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/08/2008

