SEM TERRA, SEM RUMO E STRAVINSKY

Desde que há algumas semanas os caminhoneiros se reuniram-extremamente bem coordenados, diga-se de passagem – para a sua greve geral que se fala em crise institucional. De repente, na quinta-feira passada, outro grande movimento, o dos sem terra, segundo muitos, e dos sem rumo, segundo FHC, mexeu com o coração de Brasília e escancarou a situação brasileira.
Enquanto isso, no sul e sudeste, aproxima-se a primavera e, segundo os arautos de sempre, o Brasil, em breve, entrará nos eixos. É bom lembrar que o 05 de outubro é nada mais, nada menos, que o “Dia da Ave”, segundo o calendário cívico-histórico brasileiro. Os pássaros ficarão felizes pela escolha, quem sabe, do seu dia para o anúncio do fim dos problemas brasileiros. E voarão em rasantes sobre a Praça dos Três Poderes. Quem acredita em Nostradamus pode acreditar em tudo.
Para quem mora por estas bandas do Brasil, onde as estações se resumem a sol e chuva, ou seca e enchente, a coisa até parece piada. Como parece piada a discussão sobre globalização e o que é ou não é empresa nacional, pois parte das maiores das daqui, se não tivessem sido assistidas com o dinheiro farto e generoso dos incentivos fiscais e dos rombos em bancos estatais, pouco mais seriam que espectros.
Por tudo isso é que fiz, mesmo sem entender de música erudita, uma analogia entre as promessas da primavera, do governo e a obra musical “A Sagração da Primavera”, de Igor Stravinsky. Recebida como um verdadeiro escândalo quando de sua estréia na primavera de 1913, em Paris, sua força foi tamanha que passou a influir na mudança da postura cultural da época e o choque produzido mexeu com as classes dominantes de então que, estupefatas, a ouviam no Teatro dos Campos Elíseos.
É provável que a analogia que me proponho a fazer se prenda ao próprio conteúdo da peça musical que se compõe de duas partes. O governo atual também tem duas partes, a antes do início do segundo mandato em janeiro de 1999 e a que veio depois.
Voltemos à Strasvinsky. A primeira parte da peça é a Adoração da Terra (seriam a defesa intransigente dos ruralistas e a ação constante dos sem terra?), em que é descrita o renascimento da natureza (seria o respeito ao meio ambiente ou o aproveitamento de terras improdutivas?), os augúrios da primavera: dança das adolescentes (seriam as esperanças e os dramas da nossa jovem democracia?), os jogos de captura (seriam os jogos de poder entre os do governo e as esquerdas?), os jogos das cidades (poderiam ser os interesses e as guerras fiscais entre sudeste-sul e norte- nordeste?), a procissão do sábio (alguma semelhança com alguém e o seu séquito?) e a dança da terra (as invasões, os crimes e a impunidade?).
Espero que esta analogia não se configure também na segunda e última parte da composição de Stravinsky que é iniciada com o sacrifício (seria o nosso holocausto?) e concluída com a dança do sacrifício (seria a vingança dos “sem, sem” com a dança dos “com, com?”).
Stravinsky e analogia à parte, o brasileiro já vive a dança do sacrifício há muito tempo e se penitencia, talvez, da insensatez coletiva que permite a eleição e reeleição de muitos políticos corruptos, despreparados ou maquiavelicamente geniais que se contrapõem a uns tantos capazes e honestos que, pouco ou quase nada, conseguiram nesta década findante.
Vitórias a comemorar? Quais? Não se sabe ainda como o país e a Nação reagirão aos direitos, encargos e diretrizes da globalização, nome que pode ser tão efêmero quanto o tempo que medeia uma e outra estação. Ë bom lembrar que a estação que antecede à primavera é o inverno, sem esquecer que ela é substituída pelo verão, época sujeita a chuvas e trovoadas, especialmente em países tropicais e bonitos por natureza.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/08/1999

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