SENTIMENTOS E DESEJOS – Diário do Nordeste

Certa vez, participei de um debate com a médica Carmita Abdo, psiquiatra do Hospital das Clínicas da USP e responsável por projeto sobre a sexualidade do brasileiro. Ela e a sua equipe fizeram 7.100 entrevistas e descobriram que a sexualidade masculina não vai bem, apesar dos remédios indutores para os que têm ou se imaginam com disfunção erétil. O fato é que nós, jovens ou maduros, precisamos reformular conceitos e relações pessoais e isso passa pelo nosso jeito de viver e parecer. O brasileiro sempre exagera seu desempenho sexual, mas há também gente escondendo suas calamidades pessoais. Primeiro, o homem precisa entender que a ereção resulta de uma conjunção de fatores, a partir do desejo e/ou do sentimento e, em seguida, se integra ao sistema nervoso central, nervos, vasos e testosterona. Pode parecer complicado, mas não é. Imagine procurar relatar como é dirigir um carro (abrir a porta, introduzir a chave, girar a ignição, olhar para frente, ligar a marcha e dar partida). É simples dirigir, é simples ter o desejo, mas tanto na direção do veículo, como na direção do seu espetáculo pessoal, há, por exemplo, influências do álcool, tabaco, obesidade e do estresse da vida. Isso muda.
Outro médico, Gilberto Ururahy, relata que 28 mil homens ativos, entre 30 e 70 anos, foram analisados e, dentre eles, 70% relataram índices altos de estresse, 50% não faziam exercícios, 50% ingeriam álcool, 25% fumavam, 23% eram hipertensos e 50% tinham contas com o colesterol. Resultado: 25% com perda significativa do desejo sexual. Por outro lado, a pressa no viver e a liberação sexual aparente, produzem estilhaços nas relações e carências que não provocam a explosão de sentimentos e desejos. Porque é fácil, não se deseja. Porque poupa sentimentos, leva receios para o encontro, fracassa no amor e desempenho. O que digo aqui é apenas um alerta e cabe a cada um analisar e discutir com a sua parceira que, igualmente, não pode fazer jogo de cena. Sem sentimentos verdadeiros, o desejo passa a ser banalizado “porque em terra que tem fada, tem bruxa também”, dizia I.Legrand.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/06/2007.

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