“A ciência sem a religião é manca, a religião sem a ciência é cega”. Einstein
Há dois bilhões de cristãos no mundo. Católicos, anglicanos, protestantes, luteranos, evangélicos e afins. Acontece que a Terra tem mais de sete bilhões de pessoas. Assim, de cada sete pessoas, menos de duas acreditam em Deus e no seu filho unigênito, Jesus, o que surgiu há 2015 anos em meio à dominação romana, em área miserável, hoje ocupada por israelenses e palestinos.
As crenças, ao longo do tempo, fizeram e fazem milhões de mortos. Tudo em nome da fé que entoavam. É contrassenso. Segundo o evangelho de Lucas, o anjo Gabriel teria dito: “Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus; eis que conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Este será grande, será chamado Filho do Altíssimo e o Senhor Deus o trono do seu pai Davi; reinará sobre a casa de Jacó eternamente, e o seu reino não terá fim”.
Acontece que parte dos cristãos, os não católicos romanos, não creem que Maria seja a intercessora. Admitem que ela tenha sido a escolhida, por tal razão seria santa, mãe de Jesus, mas “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23). E dizem mais: Jesus teve irmãos. Os católicos falam que eram primos de Jesus e não irmãos. Os não católicos invocam, como prova, o evangelho de João 2:12, referindo-se a ida de Jesus a Cafarnaum: “Depois disto desceu ele para Cafarnaum, com sua mãe, seus irmãos e seus discípulos”.
Quem quiser tirar as suas conclusões, pode dar uma olhada em Mateus 12.46, 13.55 e 56. Marcos 7.3 e I Timóteo 2.5.
Para nós – neste tempo de exacerbação do autodenominado Estado Islâmico, de questões fundamentalistas, econômicas e bélicas que assolam o Oriente Médio –, não importa e nem cabe discutir se Maria era ou não virgem e se Jesus teve irmãos ou eram apenas primos. Ao visitar Egito, Israel e Palestina, faz alguns anos, escrevi em jornal dizendo que nunca haverá uma solução definitiva de paz. Complementei dizendo que os casamentos entre judeus e árabes, que aumentam, podem minorar o radicalismo. Além disso, há, em ambos os lados, estudiosos pacifistas.
Para os seguidores de Maomé, há outra história sagrada e para isso recorrem ao Alcorão, o equivalente à Bíblia dos cristãos. Acreditam os muçulmanos, na Surata 5:72-73, que “são blasfemos aqueles que dizem: Deus é o Messias, filho de Maria, ainda quando o mesmo Messias disse: Ó israelitas, adorai a Deus, que é meu senhor e vosso. A quem atribuir parceiros a Deus, ser-lhe-á vedada a entrada no Paraíso e a sua mora no Paraíso e a sua morada será o fogo infernal”. No mesmo Alcorão, todavia, está dito que pode haver perdão para judeus e cristãos: “Mas quem praticar o bem e for ademais fiel, saberá que seus esforços não serão baldados, porque os anotamos todos”.
Quando chegamos ao Oriente, onde já estivemos por duas vezes, sequer entendemos os mundos hinduísta, budista, xintoísta e a sabedoria de Confúcio.
O hinduísmo não é, em sentido estrito, uma religião, mas uma filosofia de cunho de crença e reivindica ser a mais antiga de todas as fés, sem data determinada. Ele está dividido em três períodos, o védico, com o culto a deuses, como Dyans, que seria o deus supremo. Surge, tempos após, a fase Bramânica com a trindade: Brahma, a da alma imortal; Vishnu, a da preservação; e Shiva, a alma destruidora.
Segundo o hinduísmo, que hoje vive uma fase híbrida, com influências de outras crenças, a trajetória que a alma terá será de acordo com as ações praticadas em vida (a lei do carma), a libertação final da moksha (espírito) impõe o fim do ciclo da morte e do renascimento. Todo o ritual hinduísta tem por fundamento a meditação e as oferendas.
Na crença budista, Maya – a mãe de Sidarta Gotama, que se tornaria Buda apenas aos 29 anos –, tal como Maria, a mãe de Jesus, também era virgem e permaneceu virgem.
Buda nasceu seis séculos antes de Cristo, na Índia, e os seus adeptos não o consideram Deus, mas alguém iluminado, aquele que está liberto da ignorância e pleno de sabedoria. As regras do budismo parecem simples: não fazer mal a nenhuma criatura viva, não tomar aquilo que não lhe foi dado, não se comportar de modo irresponsável na sua sexualidade, não falar falsidades, e não se entorpecer com álcool e drogas. Xinto significa “caminho dos deuses”.
Reza a lenda sobre o xintoísmo que depois de sete gerações de divindades nascidas no Cosmo, apareceu consolidada, no século VI da era cristã, o último casal, Izanagi e Izanami, que teve oito filhos transformados nas oito ilhas que constituem o Japão. O xintoísmo e o budismo são praticados no Japão, sendo que o xintoísmo consagra mais o nascimento das pessoas e o budismo cuida do final, da morte. O ideário do xintoísmo é amar a natureza, respeitar os antepassados e ser politeísta.
Na China, no século dois da era cristã, surgiu Confúcio que desejava descobrir o caminho superior e chegar ao “Tao” e ali encontraria a harmonia para a existência e para os mistérios do mundo. Nascia o confucionismo, que teve força espontânea até 1949, quando surgiu o comunismo e a prática foi postergada em nome da revolução cultural de Mao-Tse-Tung, que veio a seguir.
Sabe-se que as dimensões do confucionismo centradas no eu, na comunidade, na natureza e no firmamento permanecem arraigadas no espírito das famílias de lá, que, quando podem, tentam seguir as suas virtudes essenciais: amar o próximo; ser justo; ter comportamento acertado; cultivar a sabedoria e a sinceridade. A família é a base da sociedade e os governantes devem amar o povo. O confucionismo é filosofia de vida, não é religião tal como concebemos no ocidente.
Fizemos, numa visão aligeirada, simplista e superficial, com a ajuda de leitura de livros e buscas na Internet, uma volta ao mundo da fé e da filosofia de vida. O que mais brota em todas essas manifestações citadas é a referência temporal ao nascimento de Jesus.
Nota-se que todas as crenças e filosofias possuem suas próprias contagens temporais diferentes do que, por exemplo, agora comemoramos: a morte de Cristo, o Jesus de Nazaré. Entretanto, o calendário cristão é a menção basilar para a contagem do tempo entre a vida e a morte, com ou sem esperança da eternidade. A todos os que nos acompanharam esta pequena viagem, através das crenças e das filosofias básicas da humanidade, os nossos votos: vivam em paz, sigam aquilo em que acreditam.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2015

