Li com atenção um pequeno livro. Escrito em 1752 por Mathias Aires: “Reflexões sobre a vaidade dos homens” é uma excelente leitura. O título parece dizer quase tudo, mas é um ensaio filosófico de fácil absorção. Mathias Aires era brasileiro, nascido em São Paulo, em 1705. Adolescente, acompanhou seus pais a Portugal e lá quase concluiu seus estudos em Coimbra, mas foi na Galícia onde se licenciou em Artes. O livro teve a transcrição e adaptação do Português da época para o do nosso tempo feita por André Campos Mesquita. O autor se baseia, de partida, no trecho bíblico do Eclesiastes, escrito em latim: “Vanitas vanitatem et omnia vanitas”. Traduzindo: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade. É preciso contextualizar a época: a Península Ibérica era essencialmente católica e a Inquisição dominava a fé. Tanto isso é verdade que o livro, como todas as outras produções literárias e artísticas da época, precisou do aval do Santo Ofício. Havia um Qualificador da Fé. No caso, o frei Marcos de Santo Antonio. Ele diz, ao conceder a licença: “Revi por ordem de Vossas Ilustríssimas, o livro intitulado Reflexões sobre a vaidade dos homens, que pretende imprimir seu autor Mathias Aires… parece-me não conter coisa que se oponha à nossa Santa Fé, ou bons costumes, e que merece lhe concedam Vossas ilustríssimas à licença que pede. Esse é o meu parecer”. Como se nota, o escritor era previamente censurado, o que talvez tenha impregnado sua filosofia de “discursos morais”. De pronto, Aires afirma: “Trazem os homens entre si contínua guerra de vaidade; e conhecendo todos a vaidade alheia, nenhum conhece a sua: a vaidade é um instrumento que tira dos nossos olhos os defeitos próprios, e faz com que apenas os vejamos em uma distância imensa, ao mesmo tempo que expõem à nossa vista os defeitos dos outros ainda mais perto, e maiores do que são. A nossa vaidade é a que nos faz ser insuportável à vaidade dos outros; por isso quem não tivesse vaidade, não lhe importaria nunca que os outros a tivessem”. É bom ver o autor analisar os dois lados da questão vaidade. Diz ele: “Assim se vê que há vícios de que a vaidade nos preserva, e que há virtudes que a mesma vaidade nos ensina”. Agora, vejam a parte moral: “Buscamos a Deus quando o mundo não nos busca; se alguma ofensa nos irrita, deixamos a sociedade, não por arrependidos, mas por queixosos, e menos por amor a Deus, que por aborrecer os homens. A vaidade nos inspira aquele modo de vingança, e parece, com efeito, que deixar o mundo é desprezá-lo. Assim será: mas quem deseja vingar-se ainda ama, e quem se mostra ofendido ainda quer”. Essas lições, escritas nas trevas do século XVIII, são tão claras e mostram o quanto foi e é vão o mundo dos homens, daí parece ser verdadeiro que a vaidade é uma forma de querer reconhecimento.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 15/05/2009.

