SOMOS DIFERENTES

É claro que somos diferentes. Você é você. Eu sou eu, como diria Fritz Pearls. O que eu gosto só é referência para mim, pode servir – ou não – para você. Essas diferenças nos mantém vivos, alertas, intrigados, intrincados, mexendo com a nossa capacidade de tentar – o que é difícil – conhecer o outro, esse ser misterioso, às vezes tão próximo e ao mesmo tempo tão desconhecido.
Graças a Deus somos diferentes. Isso é instigante e enseja que se façam conjecturas, devaneios, sonhos, promessas e que tais, quando, muitas vezes, as respostas são tão óbvias. Lágrimas podem ser apenas lágrimas. Ao secá-las, o espírito se restabelece, o corpo recebe adrenalina e endorfina, para torná-lo capaz de fazer a pulsação disparar com novas emoções que darão vida à nossa vida. Imaginemos que todos fossem iguais. Tudo seria previsível, sem graça, chato e modorrento. É bom que cada dia e cada pessoa nos propiciem descobertas, novas formas de partilhamento e desafios.
É ótimo que você me surpreenda e, certamente, será agradável que eu não seja o retrato da mesmice que entedia. O novo encanta e estimula.
A busca do novo e do desafio, próprios do ser humano, quando levados para os relacionamentos pessoais, torna-os mais emulantes e ricos. Cada informação nova parece uva decantando gota a gota formando aquele mosto que se transformará em vinho ou vinagre. A qualidade e o “bouquet” do vinho ou o sabor acre do vinagre dependerão de cada um e de suas habilidades no relacionamento com o outro.
É natural que nessa busca do novo no outro – o conhecimento, enfim – não se perca a noção da realidade que, cedo ou tarde, nos cobra o seu dízimo. Isso não deve nos amedrontar ou tolher nossos passos em direção ao outro, desde que saibamos ou imaginemos, pelo menos, saber o que queremos.
A liberdade total nunca nos é concedida. Ela é fruto da insubmissão, da inquietação, da conquista e da consciência de que o que se vive e como se vive não nos agrada, daí a porta aberta para um mundo desconhecido. Mas, é preciso deixar claro o preço que se paga ao tentar o novo, assumir as diferenças e, talvez, não chegar ao lugar que se sonhe.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 24/01/1999.

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