Tenho amigos e familiares espalhados pelo mundo. De vez em quando, um deles vem dá com os costados pelo Brasil. Da mesma forma, uma vez por outra, os visito. Um dos temas recorrentes de nossas conversas é o deslumbramento da classe média brasileira. Gastam o que podem e o que não podem. Estabelecem padrões de comportamento que são, de há muito, superados nos lugares citados.
Exemplos 1: Fulano tem um bom emprego ou uma empresa que está crescendo. Compra um apartamento novo, chama uma decoradora que o enche de mesas, cadeiras, espelhos, cortinas, gravuras ridículas e tudo o mais que couber. O carro já não condiz com o apartamento e “os vizinhos ficam reparando”. O que fazer? Compra um novo. E não fica só nisso, aí vem a festa de inauguração e sua mulher resolve mostrar às amigas o quanto está bem de vida. Contrata serviço de “buffet”, som e o marido já reclamando dos compromissos que vai ter que honrar.
Exemplo 2: A filha mais velha vai completar 15 anos e diz que todas as amigas fizeram uma festa maravilhosa. A mãe faz finca pé e se alia à filha. Conseguem. Sai a festa com cerimonial e tudo. O pai se sente meio ridículo dentro de um terno com gravata l apertando seu pescoço. Vê a quantidade de gente entrando e, sem querer, vai fazendo cálculos de como pagar as despesas da festa e a promissória vencida do seu negócio.
Exemplo 3: Mariazinha tem 09 anos e Carlinhos vai completar 08 anos e ainda não foram à Disneyworld e “todo mundo já foi”. “Isso é um absurdo”. “Temos que dar um jeito” e lá se vai o pai comprar um pacote para os filhos não ficarem frustrados. A humilhação começa no pedido de visto, pedem comprovante de salário, original do Imposto de Renda, passagens de ida e volta e o diabo a quatro. Finalmente chega o grande dia e toda a família vai para o aeroporto deixar os heróis.
Por outro lado, vamos dar só dois exemplos de estrangeiros
Exemplo 1: Wini é médico, alemão, tem clínica bem montada em Frankfurt e todo dia pedala sua bicicleta que deixa na estação e toma um tem para o trabalho. Volta ás sete, ajuda a mulher a fazer a comida e ensinar os deveres das filhas. No final de cada ano, planejam férias sempre procurando opções econômicas. Exemplo 2: Nako é engenheiro mecânico, japonês, trabalha distante 02 horas de casa, e sua mulher deixa os filhos numa escola pública enquanto rala como bibliotecária. Só têm folga aos domingos para um piquenique em um parque próximo de sua casa. Férias? Há anos que não gozam. Viagem? Foram uma vez a Kioto. Parece estar havendo alguma coisa errada nessas informações, mas, não. Os relatos são verdadeiros e mostram visões diferentes de mundo. Cristopher Larsh, autor de «A rebelião das elites”, deixa claro que a decadência das nações está intimamente ligada aos hábitos da classe média.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 09/02/2007.

