TALVEZ… – Diário do Nordeste

Um dia desses fui à casa prazenteira de uma das minhas filhas. As netas estavam fazendo tarefas escolares. Minha filha achega-se e mostra o caderno escolar de minha neta mais velha. E o faz como a dizer: veja, parece que ela tem alguma coisa sua. E vejo uma espécie de poesia, manuscrita, com o título de “Talvez…” E pus-me a lê-la. A neta estava, de forma espontânea, abordando um problema social. Ficava claro para mim que parecia sentida com uma constatação a que chegara. Essa constatação a impelia a escrever o que sentia de forma tão doce e, ao mesmo tempo, tão forte. E o fez como dever de casa para a escola. Vou abrir aspas para ela: “Talvez uma criança não tenha o que comer – enquanto eu tenho um banquete a escolher. Talvez uma criança trabalhe sem parar – enquanto para mim só basta estudar, estudar. Talvez uma criança more na rua e durma no chão – enquanto eu deito no meu gostoso colchão. Talvez uma criança passe o dia a chorar – enquanto eu só faço brincar. Talvez uma criança não tenha onde morar – enquanto eu tenho casa linda e vivo a reclamar. Talvez uma criança só queira ter uma família – enquanto eu reclamo que o controle não tem pilha. Essas são as diferenças daquela criança para mim – agora eu já sei que as vidas de algumas crianças são muito duras, sim”.
Olhei para a minha filha e sorri de alegria, embevecimento e ternura. Nada a ver com a forma do escrito, embora seja aprumada para uma menina de dez anos. Mas, principalmente pelo seu conteúdo. E vi que a dedicação de minha filha, ao acompanhar, com desvelo e atenção, – as tarefas das suas filhas – não estava sendo em vão. Aquele escrito era fruto que adoçava minha boca dos amargos que a vida impõe. E, mais que depressa, mandei tirar uma cópia para eternizar a sua escrita.
E, agora, partilho com vocês essa alegria de avô coruja, com a consciência genética de que ela só tem um quarto do meu sangue e isso me leva a dividir com os outros três quartos, as duas avós e o outro avô, esse regozijo. Aos seus pais, meeiros do seu amor, o realce pela educação transmitida. A ela, Lu querida, votos para que cresça assim, amando o próximo e escrevendo.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 16/03/2008.

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