Saio de São Paulo pela Marginal Pinheiros em direção a Guarulhos. Vejo a beleza dos novos prédios ser contraposta com a rudeza dos casebres de zinco, madeira, papelão e alvenaria que assomam em quaisquer espaços sob viadutos e praças. O dia está no zênite e o caminho se faz lento. O progresso fez mais carros que estradas e já é comecinho da tarde quando, à direita, se espraia o aeroporto, batizado Mário Covas. Desço, consigo um carrinho e vou com a mala em direção ao despacho da Tam. Fila maior que a paciência. Que jeito! Meia hora depois, sou atendido. O bilhete e a bagagem estão certos. Pergunto se o avião está no horário. Claro, a Tam assegura. Olho o relógio, duas da tarde.
Vejo conhecidos, troco dedos de prosa e vou ler Marina Colasanti. O avião deve sair às três. Estou na sala de embarque junto com colegas eventuais de voo. O auto-falante agora diz que o vôo vai atrasar um pouco. Pergunto o que significa um pouco. Não sabem. Já são cinco da tarde e nada de embarque. Pessoas abarrotam o balcão à procura de explicações que não são dadas. O ar fica pesado e começam reclamações. Outro aviso ao alto-falante: o voo sairá às sete. Já é uma esperança. Vou dar uma voltinha e como um brioche requentado, pois não há outra opção.
São 18:40h e nada do aviso de embarque. Alguém respeitável pede explicações e o Assistente de Aeroporto da Tam só tem desculpas polidas. Sete horas da noite e estou com os pés doídos de tanto pisar e repisar na sala de embarque. Afinal, às oito, sai uma certeza: o voo foi cancelado. Pedem para nos encaminharmos a outro piso a fim de definir o que faremos. Tomo o elevador e encontro uma nova e tamanha fila. Uma jovem supervisora diz que a “Tam estará disponibilizando hotel e ônibus”. Lá vem gerúndio e besteirol treinado. Canso de tudo, vou atrás da mala, tomo um táxi, dirijo-me a um hotel. Faço o check-in, peço um drinque, janto e tento dormir, longe de onde esperava chegar, desde que acordei, e já é meia noite. Telefono para a Marta Suplicy e ela saiu. Então, não há como relaxar e gozar. Ela me paga. Ligo o som: ouço Jobim, desligo.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 14/10/2007.

