Ao meu olhar, temos poucos bons autores de peças teatrais brasileiras contemporâneas. A TV engole o teatro, que resiste. No, no meu leigo juízo, lembrei-me do autor de teatro Gerald Thomas, um desses brasileiros que, por ter nome estrangeiro e vivido muito tempo no exterior, sempre corre o risco da perda de identidade cultural. Aqui e lá. Ele foi e é polêmico e, nos anos noventa, criou peças loucas Depois de se separar de sua parceira, Daniela, foi companheiro da atriz Fernanda Torres, filha de Fernanda Montenegro. Em uma das peças (The Flash and the crash days) que montou em 1993, em São Paulo, Gerald usou, esta a palavra correta, as duas fernandas em cena sugerindo quase sexo explícito entre filha e mãe. Fiquei aturdido. À época, neste mesmo DN, escrevi artigo sobre a peça e concluí dizendo: “Lembro que, ao sair do teatro, tive a coragem de perguntar a espectadores se haviam entendido a peça. Disse ainda, quem tiver entendido levante a mão. Todos riram e ninguém levantou um dedo sequer”. Na verdade, o que ele fez nessa e em outras produções foi uma espécie do teatro do absurdo, sem Ionesco. “The Flash” pode ser remontada em qualquer sequência de cenas que não faz nenhuma diferença e há quase ausência de diálogos. Agora, neste 17.04.10, leio na Folha de São Paulo um artigo assinado pelo Gerald Thomas ao comentar o livro “Teatralidades contemporâneas”, de Sílvia Fernandes. Ele, enfim, para alegria dos que gostam do teatro verdadeiro, diz que vai deixar a ribalta. Transcrevo: “Agora, tendo me despedido do teatro, através de um artigo no velho blog…E continua: “vejo minha vida teatral e operística com grande saudade, mas com uma tremenda resolução: sou um ponto zero, um ponto falho, se deixei falhas enormes para trás”. Ao final do artigo, Gerald afirma que “paga-se um preço ao criar, e paga-se outro para imitar. O ‘teatro-supermercado de “gadgets” que precisamos para viver é algo chato e sem pensamentos a respeito de si. O teatro não se repensa há tempos”. O teatro brasileiro precisa, realmente, fazer uma autocrítica, mas, por favor, não convidem o Gerald Thomas, agora auto exilado em Londres.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 25/04/2010.

