Aproprio-me do trecho inicial de “A Casa”. Da escritora Natércia Campos: “Fui feita com esmero, contaram os ventos, antes que eu mesmo dessa verdade tomasse tento”. Hoje, as casas feitas com esmero estão sendo abandonadas e demolidas, tudo em nome do medo e em busca da segurança perdida.
Fui, como a maioria das pessoas, criado em uma casa. As casas tinham jardins e quintais, mas não possuíam grades, alarmes, câmeras, cercas elétricas e vigias. Eram, simplesmente, casas.
Hoje, quase todos fogem de casas. Minha mãe ainda resiste. Mora, cercada de plantas, em uma casa toda gradeada, trancada e encadeada. Tem medo, mas gosta de mexer em jardim, criar um pequeno e inofensivo cão e colher umas poucas frutas de seu quintal. Já sofreu pequenos furtos, mas ainda não foi vitimada por violências comuns às grandes cidades. Ela resiste e nós, seus filhos, temos medo.
Temos medo, não por paranoia, mas pela violência e consciência da degradação urbana a que somos submetidos por nossas ações predadoras e por omissões de cidadania. As grandes cidades brasileiras estão mostrando a face crua do desaparelhamento policial, do descompasso da distribuição de renda e do desemprego oriundo de uma economia que não tem mais sua sustentação no trabalho. Por outro lado, a “delinquência romântica” cedeu lugar aos assaltos planejados, aos sequestros e a uma corrupção tão forte que cria a sua própria teia de autossustentação.
Em “Morte e vida de grandes cidades”, Jane Jacobs (Ed. Martins Fontes) diz que: “É inútil tentar esquivar-se da questão da insegurança urbana tentando tornar mais seguros outros elementos da localidade, como pátios internos ou áreas de recreação cercadas. Por definição, mais uma vez, as ruas da cidade devem ocupar-se de boa parte da incumbência de lidar com desconhecidos, já que é por elas que eles transitam”.
Um dos males das grandes cidades é que nós não estamos acostumados a lidar com desconhecidos. Fomos todos acostumados a saber quem são as pessoas que encontramos no trabalho, no lazer e nas ruas. Hoje, isso é impossível. Vá a um cinema, teatro, igreja, loja ou restaurante e verificará como tem gente desconhecida. O desconhecido nos mete medo.
Jane Jacobs, por outro lado, critica os urbanistas que advogavam a recuperação de áreas urbanas com a construção de apartamentos ou conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda. Segundo ela, “tornaram-se núcleos de delinquência, vandalismo e desesperança social generalizada, piores do que os cortiços que pretendiam substituir.” Seria a institucionalização de uma apartação social garantidora da ordem urbana?
Creio que a insegurança pública é bem mais profunda e é fácil – e simplista – culpar somente o poder público. Ela, a insegurança, nos deve remeter à discussão urgente do nosso descomprometimento social. Não é o ato de pagar impostos que nos exime de uma responsabilidade solidária. Temos medo sim, da insegurança e da violência, mas nos constrange dizer que temos mais medo de uma sociedade alienada que está medindo seu poderio pelo gasto com segurança privada quando não percebe o caos social gerado por sua indiferença.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 29/04/2001.

