Enterros, missas de sétimo dia, visitas a hospitais, notícias de doenças de colegas e amigos e aí começa, meio forçada, a consciência da mortalidade. Essa consciência se manifesta de várias formas:
01. Talvez, por tais razões, amigos e amigas da minha geração resolveram, de uns tempos para cá, fazer revisões gerais. As revisões gerais são frutos desses enterros, missas, visitas a hospitais, das doenças de colegas, parentes e amigos. Elas decorrem também do que se vê nos espelhos, das revelações silenciosas das balanças caseiras, do cansaço ao fazer um simples exercício, do surgimento de doenças, da queda do desempenho sexual, da acomodação e do descuido com a aparência.
02. As clínicas de cirurgias plásticas passam a ser fortes aliadas de pessoas que desejam adiar a velhice ou retocar o que imaginam possam enfear seus corpos. É no instante em que, paciente e cirurgião plástico se encontram pela primeira vez, desponta a capacidade de convencimento e persuasão do médico, agindo, preliminarmente, como um consultor estético e psicólogo, tirando fotos, mostrando as vantagens e falando das técnicas que executa.
03. Pululam por todas as cidades clubes de Mountain Bike, hidroginástica e as academias de ginástica, onde, além dos equipamentos indispensáveis aos cuidados do corpo, pontificam grandes espelhos para mostrar a face narcísica que aflora em seus freqüentadores.
04. Os corpos passam a fraquejar e as visitas ao clínico geral ou a especialistas mostram a quantas andamos. De repente, aprendemos o que é ácido úrico, avc, bursite, calorias, carboidratos, cineangiocoronariografia, colesterol, creatinina, densitometria óssea, diabetes, distonia, estresse, glicose, hiv, insônia, mamografia, presbiopia, próstata, psa, ressonância magnética, rinite, triglicérides, uréia e tanta coisa que pensávamos não existir ou não ter nada a ver conosco. E o pior é que tem. E os laboratórios de análises e as clínicas de imagem passam a fazer parte do nosso imaginário,
05. De repente, vem a célebre desculpa: “eu não sei o que está acontecendo comigo, foi a primeira vez”.Na verdade, não foi. E não só acontece com ele. Acontece com ela também. Só que o homem pode mentir, mas não pode fingir. Nessa hora nem é preciso fazer autocrítica e descobrir de quem é a “culpa”. Nossa? da outra pessoa? Na verdade, talvez seja a hora da revisão adiada, dosando hormônios, fazendo prevenções ou ajustando a cabeça às novas regras da idade e do corpo, procurando fidelizar relacionamentos na base da compreensão e do amor.
06. Por outro lado: na mulher, as roupas soltas e largas procuram disfarçar as formas. No homem, o cinturão passa a ter uma nova marca, a camisa é comprada um número maior e o desleixo pode passar a ser uma companhia desagradável. Nessa hora é preciso criar coragem e ir à luta, descobrindo um novo sentido para o corpo e a vida, optando por dietas mais saudáveis e estabelecer a prática de exercícios ou caminhadas como rotina diária.
Esses seis itens levantados – entre tantos outros – com a profundidade de um dedal, objetivam apenas despertar a sua atenção para as mudanças naturais do nosso corpo e deixar claro que há sempre uma resposta positiva para as dúvidas, desde que procurada a tempo. Não se deve, entretanto, esquecer o que disse Mark Twain: “A única maneira de conservar a saúde é comer o que não queremos, beber o que não nos agrada e fazer o que preferíamos não fazer”. Será?
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 31/01/1999.

