“É necessário reunir tudo aquilo que a imaginação consegue conceber de mais terrível para representar, ainda que precariamente, o horror em que as pessoas se veem quando a terra se move sob seus pés, quando tudo ao redor vem abaixo, quando a água agitada em seu leito completa a desgraça com inundações e quando o temor da morte, o desespero pela perda total de todos os bens e, por fim, as visões de outras misérias arrasam mesmo o ânimo mais resistente. Uma tal narrativa seria comovente e, por ter um impacto direto sobre o coração, talvez possa torná-lo melhor. Só que eu deixo essa história para mãos mais capazes.” A descrição parece de um jornalista atual sobre os terremotos do Haiti e do Chile, mas foi feita por um filósofo, Emanuel Kant, em 1755, sobre o grande terremoto de Lisboa. O texto faz parte de ensaio do prof. Marcus Mazzari para o “Mais”. O que se pode ver é que o alemão Kant, o autor das críticas da razão pura e da razão prática, fala em “impacto direto sobre o coração”. Dessa forma, deduz-se que alguns filósofos são, além de pensadores, plenos de sentimentos. Das cinzas e escombros do terremoto de Lisboa emergiu a figura do Marquês de Pombal, o reconstrutor e gestor do novo traçado urbano da cidade e parte da instrumentação legal portuguesa. Agora, quase 300 depois, o Haiti e o Chile vivem problemas similares. O Haiti, por seu histórico de pobreza e dominação estrangeira, tem uma diáspora e muitos dos seus filhos andam pelo mundo. Os que lá ficaram não têm, pensa a ONU, capacidade plena de autogestão e, por conta disso, ela fez pouso permanente para minorar o caos e a segurança. O Chile, saído a 20 anos de uma ditadura, conseguiu ser um cartão de visita da América do Sul, mas deixou as mãos capazes e limpas de Michele Bachelet, para os planos e ações práticas de Sebastian Piñeda, espécie de mistura de Eike Batista e Jorge Lemann, os brasileiros da lista dos endinheirados do mundo. O que se espera da ONU e de Piñeda é que se inspirem na figura do Marquês de Pombal, que também era Sebastião, e façam da reconstrução o mote para a motivação de todos os atingidos pelos sismos, que não avisam quando chegam.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 28/03/2010.

