O som de um tiro de revólver ou metralhadora, seja da polícia ou de marginais, tem o mesmo pam, pam, pam, no complexo do Alemão ou em qualquer parte do Brasil. O que muda é a velocidade ou a quantidade de disparos. Mas os protagonistas, os que acionam os gatilhos, são quase sempre pessoas do povo, às vezes vizinhas, independente do lado em que atuam.
E só faltam poucos dias para outro pan, este com n, os jogos Pan Americanos, que custaram 3,8 bilhões de reais a um país que teima em ser rico e não sabe administrar o fim de sua pobreza. Visível nas filas de emprego, portas de fábricas, favelas mis espalhadas democraticamente ou doente em hospitais públicos sem capacidade de albergar a todos. As favelas são frutos de muitos problemas, dentre eles a teimosia da Igreja Católica em deter o planejamento familiar, desemprego, baixa escolaridade da maioria, ausência de política pública de urbanismo e habitação e a nossa indiferença social, como se tudo na vida não funcionasse como uma pedra na água. Os círculos vão aumentados e, querendo ou não, somos atingidos.
Estive no Rio há poucos dias. A cidade está sendo maquiada, além da Vila do Pan, do ´remake´ do Estádio do Maracanã, arquibancadas são espalhadas pela orla e o relógio da Avenida Atlântica conta os dias. A propósito, conta-se ter sido interceptada uma ligação telefônica de um grupo ameaçando fazer estragos e atacar autoridades. Tomara que não. Enquanto isso, a maior parte da população, refém da violência, se queda perplexa ou ululante diante de aparelhos de televisão vendo as lutas fratricidas de todos os dias, açuladas por apresentadores ávidos pela desgraça, sempre portadora de maior audiência. Este é um país bravateiro, preparado para o Pan e lutando por uma Copa do Mundo de futebol em 2014. Pena que os assaltos, tiroteios e os controladores de voo possam tentar estragar tudo: basta cruzarem os braços em mais uma operação padrão, tão comum quanto os muitos tiros ecoados em todas as cidades brasileiras. Ainda bem que junho acabou e tudo pode ter sido ser apenas foguetório de São João e São Pedro.
João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 01/07/2007.

