TODOS SOMOS CRIANÇAS – Jornal O Estado

“Para Bruno, a mais
criança das minhas”.
Hoje é o dia de todos nós. Os que fomos crianças e os que ainda estão crianças. Criança é um rito de passagem, é a travessia de uma ponte. De um lado estão os pais: não atravesse. Do outro, o mundo nos chama, nos desafia. Abaixo, águas revoltas de uma corredeira, animais ferozes e pedras gigantescas.
Se satisfizermos aos pais, não descobriremos o que tem do outro lado da ponte, onde estão intimidações e chances. As intimidações, desde sempre, os atuais bullying (físicos e psicológicos), muitas vezes, são maiores que as chances. Enfrente-os.
Estudar não é fácil, mas é necessário. Gazear aulas é divertido, mas, se vira costume, é inferno. Acordar cedo é chato, mas a vida nos pede isso. Vestir farda, corresponder a professores chatos e voltar a pé para casa ou de ônibus não é mole, mas é um dos custos que o futuro nos cobra. Fazer vestibular é uma dureza (só havia faculdade pública), mas o gosto da conquista vai nos mostrando que esse pode ser o caminho.
Hoje, as crianças, exceto as filhas de humildes, são cheias de vontade, de razão, e parecem que entendem o mundo porque apenas sabem mexer em jogos no tablet ou no celular do pai. Cobram, comparam-se aos colegas e poucos sofrem com a realidade da existência que o pai não lhes passa, para não fazê-las sofrer. Assim, o pai atura os pedidos dos filhos e da mulher e tenta – sabe Deus como – comprar em prestações ou ceder à maldição do cartão de crédito.
Hoje, Dia da Criança, tente rever o seu pretérito passado e saiba que os seus pais – ou só o pai, ou só a mãe – fizeram o que puderam para torná-lo gente. O problema é que não há escola para formação de pais, não há receita para a felicidade da família. Tudo é um intrincado, um dilema, um labirinto e os caminhos das saídas vão sendo feitos no escuro, tateando, escorregando, trombando. De repente, não somos mais crianças e tampouco adultos, ficamos no limbo da quase descoberta, essa coisa indefinível que nos afaga com os seus encantos e nos lapida com os percalços. Platão, que não teve esposa e filhos, já dizia:
“Os filhos dos homens, dentre todos os animais jovens, são os mais difíceis de serem tratados”.
Escrevo para adultos, certamente, mas tente agradecer aos mais velhos, os que o ajudaram a caminhar sozinho, a enfrentar as pugnas, as barreiras, e talvez você se respeite e bata no peito a dizer: cresci, mas como era bom ser criança. E como dei trabalho.

João Soares Neto
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 12/10/2012.

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