Anteontem, 30 de junho, foi dia de eleição presidencial na Alemanha. Vive hoje, situação difícil, como toda a Europa. Está unificada, mas não tem pensamento uno. Faz 21 anos que o pesadelo do muro e da divisão acabou. A Germânia tenta respirar com o pulso forte e a discrição da Chanceler Angela Merkel, luterana, madura e discreta. Ela veio da parte oriental, estudou física em Leipzig, então comunista. Por conta disso, lembrei de um passado distante. Era outono na Europa, então dividida. Viajava de trem, noite fechada e estava perdido. Trocara a palavra ocidental por oriental e me vi a caminho da Berlim proibida, na República Democrática Alemã, no trem errado. E o pior, o meu passe ferroviário não dava nenhum direito a isso. Descobri, quando um velho bilheteiro, parecendo sedento por cama em sua casa, pediu a cartela. Olhou, bocejou, coçou a cabeça e disse em um inglês arrevesado: isso não vale neste trem. E o trem não parava. A próxima estação, soube depois, seria a da Friedrichstrasse. Olhei para ele, fiz um gesto de desengano, e ele sorriu encabulado enquanto calculava o valor do bilhete no trecho descoberto. Paguei cinquenta dólares e o velho bilheteiro saiu do vagão. Agora, era esperar o porvindouro. E ele veio logo em seguida. O trem apitou, a estação ficava ao longe, mas a sua velocidade diminuía, até parar. Soldados armados, cães latindo, lanternas acesas e hastes metálicas com espelhos na ponta, como se fossem espelhos bucais gigantes vasculhavam a parte inferior do piso do comboio. Havia muitos militares e, ao lado deles, homens de casacos pesados parecendo ser da Stasi, a polícia secreta. Ou seria imaginação minha? Havia lido, sem muita atenção, “O Tambor”, livro de Günter Grass, mas não era hora de fazer nenhum tipo de sátira e tampouco lembrar de um anão a ver, de forma patética, a Alemanha ser dividida em duas, depois da queda e morte de Adolf Hitler. Foram minutos, mas a mim pareceram horas, até todos se retirarem e o trem, sem pressa, acolher-se na estação terminal. Desci e já estava numa fila da aduana feita para mostrar o passaporte, ser encarado nos olhos, fazer registros, bater uma foto de frente, dizer a duração da viagem e comprar, obrigatoriamente, marcos orientais. Quantos dias eu passaria em Berlim? Foi a pergunta que me fiz, se conseguisse, na verdade, entrar. Disse 03, como poderia ter dito qualquer número. Nunca vi essa minha foto, mas gostaria de vê-la para conferir a minha cara de espanto. Comprei as pequenas cédulas e me vi, maleta à mão, perto de um mercado. Lembrei-me de não ter jantado. Entrei. As prateleiras não estavam completas, vazias até, mostrando biscoitos, bebidas e enlatados, tudo escrito em alemão com o detalhe dos preços constarem da impressão gravada nos rótulos das mercadorias. Comi o encontrado e acheguei-me a um hotel próximo. Vou poupá-los da burocracia do check-in. Enfim, cai na cama e dormi de cansaço. Acordei sem saber onde estava. Tudo me era estranho. O sol morno mostrava, pela janela, talvez uma grande feira, nas proximidades. Tomei o café e vi ser uma exposição de casas populares, pequenas, com um simplificado e visível sistema de abastecimento de água e esgotamento sanitário. Tudo às vistas, com um só cano com múltiplas funções. Vi tudo, cansei. Almocei, andei a esmo e dei-me conta do belo Portão de Brandeburg ali próximo, com os cavalos em tropel em posição trocada, diferente do visto em antigo cartão postal. Olhei rápido, como se em perigo. Voltei para a estação de trem. Demorou, mas o primeiro partiu e eu nele. Acabara o desassossego.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/07/2010

