TRISTEZA E TRIBUTO – Jornal O Estado

Ainda estou meio triste e sem graça com o episódio dos jovens universitários a maltratar uma mulher por cismarem ser ela uma prostituta. Estou triste e sem graça por não ver sentido na selvageria e na discriminação de uma pessoa apenas por ser mulher, pobre, estar no alvorecer de um dia em um ponto de ônibus e ‘parecer’ uma prostituta.
Em outro episódio, nada a ver com o primeiro, vi outros jovens universitários, de uma universidade pública, a tentar empanar o brilho da posse de um Reitor legitimamente eleito. Eles tocavam flauta, portavam cartazes e levavam um simulacro de caixão, falando de democracia amordaçada. Tiveram plena liberdade de transitar, fazer sua ‘performance’ e se retiraram em meio ao silêncio democrático de centenas de pessoas, entre eles, outros jovens.
Por outro lado, Suely Vilela, reitora da USP, ao final da recente ocupação e greve dos estudantes, declarou à Veja desta semana: “temos muitos furtos de laptops, monitores, projetor multimídia, impressora, scanner, componentes de informática, DVD-player, pen drives, microfones, telefones e algumas máquinas também”.
Sem saudosismo, mas como reflexão, lembrei do meu tempo de universitário nos anos sessenta, quando não existiam ainda universidades e escolas particulares. Formávamos um grande grupo, ora estudando, ora participando de passeatas, greves, congressos da União Estadual de Estudantes-UEE e da então famosa União Nacional de Estudantes-UNE, aqui e pelo Brasil afora. Éramos destemidos, abusados até, tínhamos divergências internas, mas nada de matar ou ferir pessoas, desrespeitar um ato solene de posse de uma universidade a tentar ser forte ou, aproveitando-se de uma ocupação, furtar objetos. Tudo acontece em meio às fraquezas conjunturais de um país pretendente a ser grande, mas sem coerência política, ética ou quase nenhuma identidade ideológica. E dessa lembrança forte veio, como firma de tributo, a recordação de alguns nomes, entre outros, de colegas bravos como Augusto Pontes, Aytan Sipahy, Barros Pinho, Hélio Leite, Josino Lobo, Maria Luiza, Roberto Amaral, Valton Leitão, René Barreira, todos, sem exceção, vitoriosos em suas carreiras, mesmo que tenham dado parte de seus tempos de juventude a essa luta sem fim e, ainda hoje, mantenham, sob formas diversas, a chama da esperança em suas cabeças prateadas.
E, me perguntei se esse descompasso no agir de jovens de hoje a atacar índios, mendigos, mulheres ou velhos pelo Brasil afora, o episódio da ‘performance’ na posse de um reitor e os furtos na USP não serão frutos da carência de cidadania, esgarçamento das famílias um ideal maior, da velha ideologia, qualquer que fosse o seu substrato, a dar um sentido maior, além do mero existir?
Os jovens têm que ser destemidos, encetar lutas, marcar posições, cobrar atitudes, transgredir até, mas daí a se transformarem em ‘exterminadores do futuro’ ou reeditarem as famigeradas Ku, Klux, Klan e assemelhados, há uma distância enorme que não se justifica na era de informação e do conhecimento, enquanto nós, jovens de ontem, usávamos panfletos feitos em mimeógrafos, não tínhamos telefone e tampouco as facilidades da Internet. A diferença é que dávamos sentido às nossas vidas, cobrando dos outros o que pregávamos e fazíamos.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/07/2007.

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