Imaginemos um acadêmico-pesquisador em contato com jovens um pouco acima de 16 anos. Digamos: um adolescente rico, um de classe média, um filho de trabalhador e um morador de favela. Imaginemos, também, que todos estão estudando, tiraram o título de eleitor e o que ele deseja saber é o que pensa a juventude brasileira sobre o que está acontecendo no Brasil, neste exato momento.
O pesquisador toca a campainha da portaria do edifício onde mora o menino-rico. Alguém, do outro lado de um grosso vidro, fala, pela voz metálica de um microfone: quem é, mostre a identidade, com quem deseja falar e se já havia marcado. O pesquisador coloca a identidade no escaninho, diz seu nome, afirma que já havia ligado, marcara hora, podia confirmar. Um minuto. Passam dez. Pode entrar. O portão se abre, uma câmera gira e mira o pesquisador que fica confinado em uma antecâmara gradeada. Não recebe a sua identidade, só na volta. Vem um segurança armado e o acompanha até o elevador envidraçado e segue junto até ao andar determinado. Aperta a campainha do apartamento e vê que o hall tem detector de presenças e uma câmera disfarçada. Afinal, a porta pesada se abre. O menino-rico está de gel nos cabelos e uma raquete de tênis na mão. Pede que o pesquisador sente e vem uma copeira fardada servir café e água. Afinal, vamos às perguntas: Em quem você votou para presidente da República? Ele responde: em uma mulher. O senhor quer dizer Heloisa Helena. Ele responde: talvez. Posso saber a razão? Era uma coroa raivosa, deve ser legal sair com ela, imagino. E em quem vai votar no segundo turno? Ainda vai ter essa chatice, acho que vou viajar, que saco. Levanta-se e acompanha o pesquisador até o elevador.
O pesquisador entra no pátio do condomínio de casas geminadas de um bairro afastado, mas bonito, onde o espera o menino-de-classe-média. O porteiro conversa com uma doméstica e nem olha para ele. A mãe de classe média, com os cabelos numa touca, pede que entre e sente na sala onde os sofás são de imitação de couro. Dá um grito e lá vem o menino-de-classe-média com um I-Pod na mão, fone nos ouvidos e o corpo balançando ao som de uma música que tem tudo para ser baiana. O pesquisador faz as mesmas perguntas e ele responde: pensei em votar no Lula, fiquei em dúvida, depois pensei em votar no Geraldo, mas não gosto de chuchu e aí anulei o meu voto. No segundo turno, acho que vou fazer a mesma coisa, não acredito em político. Você não vai assistir aos novos programas eleitorais? De forma alguma, tenho mais o que fazer.
A rua esburacada, o lixo amontoado, antecede a casa de vila onde está o menino-filho-de-trabalhador.Os pais estão trabalhando fora. Entra sem cerimônia na porta cortada ao meio, à guisa de janela. Ele usa camisa de imitação de uma dessas marcas conhecidas e calção comprido que cobre os joelhos. Não há cerimônia, o pesquisador senta em uma cadeira de plástico meio cambaia e ouve: votei nele, vou votar de novo, ele é legal. O resto não me importa. Fim de papo. E coloca a mão no ombro do pesquisador que se despede.
O pesquisador entra na favela, vê uma aglomeração, gritos, carros de polícia, tiros, e é atingido por uma bala perdida. Sua pasta cai, alguém a rouba. Era a sua última pesquisa.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 06/10/2006.

