UM ESCRITO RASANTE: DE 1945 A 2015 – Jornal O Estado

“Aquela vida que é bela, não é a vida que se conhece, mas a que não se conhece; não a vida passada, mas a futura. Com o novo ano, o destino começará a tratar bem a vós, a mim e a todos os outros, e a vida feliz se iniciará. Não é verdade?” Giacomo Leopardi (1798-1837), ensaísta italiano.
Quando a Segunda Guerra (1939-1945) acabou os que dirigiam o Mundo de então acreditavam que deveria ser criada uma nova ordem. Estabeleceram reparações e, entre outras decisões dividiram a Alemanha em duas. Só a queda do muro de Berlim, em 1989, e o definhamento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas- URSS, depois da Perestroika de Gorbachev, foi que a Guerra Fria terminou.
Essa nova ordem, discutida, avaliada e considerada, seria a ação firme da emergente Organização das Nações Unidas- ONU, constituída em 24 de outubro desse mesmo 1945. Três anos depois, cercada de muita discussão, foi realizada uma sessão especial da ONU, no dia 10 de dezembro de 1948, para emitir uma resolução sobre os direitos da humanidade.
Esse documento é uma das peças mais bonitas produzidas pela inteligência moderna. Basta citar o seu artigo primeiro: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns com os outros em espírito de fraternidade”.
De lá para cá já tivemos dezenas de guerras e conflitos e nada de fraternidade. Quem não sabe das guerras da Coreia e do Vietnã? Das guerrilhas na América Latina? Da questão, sem fim, entre Israel e Palestina? Das guerras internas que mudaram o mapa da Europa? Das invasões do Afeganistão e do Iraque. Das lutas envolvendo ditaduras e etnias na África e a disseminação da aids e o ebola de forma cruel. E, mais recentemente, das guerras provocadas pelo islamismo exacerbado com o surgimento do “Estado Islâmico” e o ainda vivo Al Qaeda.
São tantas as guerras que não vale a pena contá-las. É claro que a ONU tem procurado resolver, de forma pacífica, os conflitos, mas a sua autoridade maior, o secretário geral (alguém lembra o nome do atual?) é apenas um burocrata bem pago e qualificado, sem autoridade perante os Estados litigantes. Os países fundadores da ONU – e os outros – não se respeitam.
A propósito, o nome do secretário geral é Ban Kim Moon. Ora, como cobrar então que exista igualdade, segurança, liberdade e dignidade se a ONU tornou-se uma entidade que privilegia os detentores do comando do Conselho de Segurança e alguns poucos mais?
Há, ainda, bilhões de pessoas que vivem em situações miseráveis. Quase dois bilhões vivem em condições desumanas, com parca alimentação, sem saneamento, instrução e lhes falta qualificações exigidas pela industrialização e a mecanização da agricultura.
Em dezembro último, Barack Obama dribla a opinião publicada e resolve reatar relações com Cuba. Isolada que foi há 53 anos por um embargo que só poderá ser extinto pelo Congresso dos Estados Unidos. Um detalhe: a maioria, nas duas casas, é republicana, conservadora e adversária do ocupante, até janeiro de 2016, da Casa Branca. Ao mesmo tempo, Obama legalizou a maioria dos latinos “indocumentados”, mas que possuam filhos nascidos no país criado por George Washington e Abraham Lincoln. Seria um xeque-mate político e um reforço para a postulante Hillary Clinton?
Por fim, vamos saudar o ano novo e desejar a todos, nesta sexta-feira, 02 de janeiro de 2015, que o Brasil supere as suas dificuldades estruturais e que os temores de uma nova retração mundial não nos atinja. Afinal, se Deus é brasileiro, como deixou o time do “San Lorenzo” ganhar a taça Libertadores da América?
É preciso que o papa Francisco pare de fazer milagres em vida e Deus volte a se lembrar dos 200 milhões de brasileiros, a maioria cristãos, sendo que uma boa parte paga dízimo para viver melhor e mais feliz. Em 2014, não tivemos nenhum milagre, mas muitos pesadelos. 2015 é a bola da vez. Viva.

João Soares Neto
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 02/01/2015.

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