UMA FORTALEZA SEM FIOS

Ano passado, em uma noite de céu claro em Madri, descobri que não havia nenhum fio ou cabo entre os diversos postes da cidade. Tudo era subterrâneo. A paisagem ficava mais limpa e o céu parecia livre dos tentáculos dos fios e cabos que conduzem a eletricidade, a telefonia e as televisões a cabo. É claro que muitas cidades do mundo são assim (Brasília era assim, porém …) e isso não é privilégio de Madri, mas foi lá que tal fato me chamou a atenção. Imaginem uma cidade sem fios e cabos, pois é bonito, posso dizer.
Agora, para alegria minha, vejo que na cidade de São Paulo foi aprovado o projeto de lei nº 248/01 do vereador Milton Leite, do PMDB. Só precisa agora que o prefeito José Serra sancione. Se não sancionar, tenho pena do futuro político dele. Deixo tudo claro para que algum vereador de Fortaleza procure o texto na Internet ou tente fazer algo semelhante em Fortaleza. E a lei em questão prevê que tudo seja resolvido em cinco anos pelas concessionárias e que no local de cada poste retirado seja plantada uma árvore. Como seria bom que esta cidade se livrasse do emaranhado de fios e cabos e, consequentemente, dos furtos que provocam mortes, acidentes e desligamentos, sem falar nos “gatos” que encarecem a energia de todos, na melhoria visual da paisagem urbana e nas podas de árvores, nem sempre adequadas, que as concessionárias de energia e telefonia fazem.
O plantio de árvores, por outro lado, poderia oferecer créditos de gás carbono à Fortaleza, instrumento normatizado pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto. Trocando em miúdos, a cidade agregaria valor do ponto de vista ambiental e teria condições de pleitear financiamentos nacionais e internacionais e negociações a fundo perdido para aplicar em meio ambiente. Hoje, já há mercado de negociações para as cidades que melhoram a poluição ambiental, aumentam o plantio de árvores, semeiam parques, despoluem cursos d’água e dão demonstrações claras de que lutam por um desenvolvimento sustentável.
O desenvolvimento sustentável para mim, que não sou ecologista, é, pelo menos, a consciência e a ação dos que vivem hoje de que não podem abusar dos recursos naturais sob pena de prejudicar os que virão depois. Se não for assim, é algo parecido. O importante é que a responsabilidade social, não só a dos políticos, mas a de todos nós, se torne clara e não seja um mero exercício de retórica.

João Soares Neto,
Cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 03/07/2005.

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