VATICANO, WOJTYLA E VOTO

Corria o ano de 1965, era outubro, e eu estava em Roma. Primeira viagem à Europa e acontecia o Concílio Vaticano II. Ver como ele acontecia era um desejo curioso de um jovem adulto. Por sorte, havia um bispo amigo da família. Ele, literalmente, abriu as portas e passei sob as vistas da guarda suíça. Vi o alvoroço interno. Eram cardeais, bispos, padres e civis cuidando daquela reforma que marcaria o pontificado de Paulo VI. Depois, fui ao Colégio Pio Brasileiro e conversei com padres que faziam doutorado em teologia.
Vivia-se um tempo diferente. O mundo ainda estava dividido em dois grandes blocos e as posições ideológicas eram extremadas. Mas, a Igreja Católica Romana, analisava e montava suas novas estruturas teológica, pastoral, política e social, desde 1962. O Concílio, no meu olhar, trabalhava a partir da ideia de fé e fraternidade universal, considerando o domínio de novas técnicas, o progresso da ciência, as transformações psicológicas, morais e religiosas da humanidade e os muitos problemas pessoais, familiares e coletivos. Tudo isso, objetivando satisfazer as aspirações do gênero humano e tendo Jesus, como solução e resposta.
Depois de sentir o pulsar do Concílio Vaticano II, fui ver a Capela Sistina e os museus do Vaticano. Confesso ter ficado chocado com a riqueza, pompa e tradição. Ao mesmo tempo, lembrava das parcas coletas de esmola para as ditas Obras das Vocações Sacerdotais aqui no Brasil. Não tinha eu ainda a noção da Igreja como Estado e de que seu acervo de obras de arte se confunde com ela própria. Se tudo fosse vendido e repartido, a miséria do mundo não acabaria. A miséria é maior e mais profunda.
O tempo passou. Veio 1978, o ano dos três papas. A morte de Paulo VI; a escolha e infarto fatal, 35 dias após, de João Paulo 1º; e, a eleição de João Paulo 2º, ora sepultado. Wojtyla, eslavo, operário, ex-soldado, ex-ator, quebrou a centralidade italiana de 450 anos, foi um grande diplomata e midiático propagador da Igreja. Alguns teólogos, L. Boff entre eles, o intitulam de ultraconservador. No tempo do seu pontificado, participando ele ou não, foi que a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, a URSS se dividiu e a Comunidade Europeia surgiu. Neste 2005 ainda é cedo para julgar o pontificado de 26 anos desse polonês que misturava, é verdade, uma mão de ferro na gestão da Igreja ao carisma nas muitas viagens pelo mundo. Sabe-se que o Vaticano, lento em mudanças, costuma ser rápido, como regente de votos, em tempos de crise. E a morte, apesar da ressurreição sonhada e prometida, ainda é uma grande crise.

João Soares Neto,
Escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 10/04/2005.

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