Amanhece. Abro as cortinas, o sol me cinge com seu calor e toma a forma da brisa que lhe empinam os panos. Termino o banho frio e, de relance, vejo-me ao espelho. Olho a barba por fazer e intuo que cada dia pode ser um descobrimento de nós e dos outros. Descobrimo-nos tal qual somos ou pensamo-nos como imaginamos que somos? Somos o quê? Adulto, infantil, apaixonado, erótico, plácido, pragmático, invejoso, invejado, carinhoso, solidário, crítico, solitário, culto, capaz, vulgar, fraterno, loquaz, taciturno? Ou um ‘pot-pourri ’de tudo isso, mudando, segundo os olhares alheios e as trilhas que afunilam as sendas de nossas vidas? Assim é que não só nos vemos, como nos veem e somos tantos para os que nunca chegaram sequer perto de nossos sentimentos e essência. Sequer conhecem a nossa vida, pois falar do outro é fácil e comum, pensar no outro é raro. Pois bem, abro a caixa de pensar e me deparo com quatro amigos vencedores. Um é entronizado, com brilho, no pélago etéreo da cultura por seu lado poético, musical, saber jurídico e desempenho profissional. César Rocha busca refrigério nas águas da poesia e do ensaio para mitigar a faina das decisões que, por ofício, toma a cada dia. Outros três, por suas histórias de vida, percursos, olhares para o mundo e atitudes serão homenageados, agora em setembro, com a Sereia de Ouro. E fico pensando em cada um deles, suas trajetórias. A Ana menina, que ganhou mundo, resplandeceu e voltou, madura e saciada, como a consagrada escritora Ana Miranda. Veio para o ventre de sua terra, de onde continua a voar e a espargir saber em múltipla ficção transformada. No tímido garoto Zé Osvaldo, Carioca do Benfica, que encontrou na magia de sua química a resposta para o crescimento pessoal, científico e acadêmico e se fez doutor reconhecido além mar. No cedrense Ubiratan, hoje pajé da tribo Aguiar, que aportou nesta Fortaleza e, pedra a pedra, pavimentou seu caminho, sem esquecer de cobrir com benquerença e tato as muitas portas que foi abrindo, aqui e alhures. E ainda não tomei o café preto sem açúcar que me dá adrenalina para o caminho da ação, desviando de catadores com carroças de ventre aberto, atendendo a flanelinhas, pedintes, entregadores de panfletos, jornaleiros e vendo os porta-bandeiras de candidatos, alguns sem enredo para contar. E as ruas, por onde passo, são como as entranhas da cidade. Tão diversa em seus contrastes e ouvem cada um dos meus pensamentos que nascem do quase silêncio, enquanto ouço “Smile”.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 29/08/2008.

