VERMELHO E VERDE – Diário do Nordeste

Neste seis, domingo, dia dos Reis Magos, vá despertando para o ano real. Não vivemos tempos de reis, somos vassalos de uma máquina estatal a impor regras, cobrar impostos e a nos fazer, a cada semáforo, deparar com pedintes, flanelinhas, entregadores de propaganda, vendedores e malabaristas.
Na realidade, malabarista é quem consegue, a cada sinal, sair ileso ou imune aos gestos, acenos, apelos, batidas no vidro da janela pedindo um trocadinho ou vendendo. É claro que a maioria tem bom coração, mas as cidades estão sitiadas para quem se locomove em veículo próprio. Deduz-se que não há magos que nos façam acreditar estarmos vivendo todos uma época de bonança. A maior bonança para o ser humano é a oportunidade de trabalho, sentir-se digno e capaz de levar para si e os seus o resultado de sua faina. O dinheiro que lhe dá o sustento e respeito por si próprio. Sei que os indicadores sociais revelam melhoria na renda da população mais pobre, mas há ainda um número grande de sem-teto, desempregados e crianças abandonadas em qualquer cidade brasileira.
É claro que alguns recebem dinheiro do bolsa-família e outros programas. Mesmo assim, mendigam. Falta-lhes trabalho, um elo básico entre o homem e a sua dignidade. Se não ganha a vida com o suor do rosto, a vida perde sentido. Como não há mais reis e magos, é preciso que os dirigentes do Brasil, estados e municípios, que veem no turismo um caminho para o crescimento econômico, atentem para o choque que estrangeiros sentem ao ver cenas de crianças, homens, mulheres grávidas e esquálidas, disputando os segundos que medeiam o vermelho e o verde dos sinais. E o sinal vermelho pode ser um momento de reflexão para todos nós, fechados em nossas casamatas móveis olhando, com piedade ou indiferença, a cena a centímetros, e desviando dos catadores. Não há como não ver, não ser atingido. Não importa que o verde do sinal abra, pois, em seguida, outro vermelho nos fará parar, ver, e pensar no próximo, aquele que apela, pede, movido pela desigualdade que o revolta.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 06/01/2008.

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