Recentemente, fiz uma viagem sentado numa cadeira em meio a coisas de ontem. Em duas horas, o tempo de uma sessão de cinema, passeei entre os anos de 38, que antecederam à 2a Guerra Mundial, e o de 63, o que precedeu a Revolução de 64. Mas, fora a contextualização, o que vi foi uma história de amor, simples e bonita. Vi partes de Fortaleza tão aquietada e dolente. A praia de Iracema, com ruas estreitas, sem máculas, e uma lagoa, também de Iracema, mas lá na Messejana provinciana e, então, distante. Vi as cercanias da cidade, serras nativas sem doenças, um navio, o seu tombadilho com cadeiras longas de madeiras, numa viagem mostrando frações de uma natureza rica, com sua graça escancarada e ainda não aviltada.
Vi mais do que isso. Vi o nascer de uma família que, de tão simples, se dignificou. Uma mãe, desmodelada para os dias de hoje, fazia, a bico de pena, singelas e belas ilustrações, acompanhadas de palavras que diziam do momento captado pelo obturador. Vi textos apaixonados de uma mulher. E os de um homem que se transmudava em papai Noel para enlevar a companheira de uma tropa em formação. Vi uma menina nascendo, crescendo, fazendo careta, rindo, sempre pronta e bem cuidada como para ir a uma festa. E era sempre festa, pois eles estavam em comunhão e essa é a maior de todas as festas. Vi outra menina nascendo, formando uma dupla faceira, brejeira e lampeira. E aí veio o príncipe para formar o trio ou o quinteto enamorado da casa no final da ruela da praia.
Vi famílias se ajuntando, compartilhando parentesco e amizade. E, como se fora um conto de fadas, uma menina se fez moça, de amigas se acercou e virou princesa por um dia eternizado. Não deixei de notar a argamassa dessa união consolidada numa casa que ficava bem do outro lado da cidade, perto de uma igreja onde havia remédio para as suas almas. Vi mais, muito mais, entre esmaecidas páginas de álbuns, com cartolinas antigas e papéis de seda clara, que se tornaram de cor sépia, meras fotos em preto e branco, mas coloridas pela essência de vida que transmitem e pelo calor virtuoso e virtual que perpassa as mãos de quem, atento, as perceba com os olhos de sonho.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 15/09/2002.

