Nasci no ventre da Segunda Guerra Mundial. Começava a redemocratização brasileira e aprendia a escrever com a mão canhota. No suicídio de Vargas ainda vestia calças curtas, mas lembro do espanto geral, do feriado forçado e da crise gerada. Com a eleição de Juscelino, em 1956, o Brasil foi recuperando a autoestima até que um porre e/ ou a loucura de Jânio, em agosto de 1962, fez surgir a “Cadeia da Legalidade” pedindo a posse de João Goulart, que passeava na China, às nossas custas.
Em julho de 1963, por um desses acidentes da vida, presenciei a luta por direitos civis na marcha dos negros sobre Washington, sentindo de perto – e ao vivo – a energia contagiante de John Kennedy. No dia 01 de abril de 1964 amanhecemos sem saber de nada e, logo após, euforia de um lado e medo espalhado no meio universitário, tão idealista quanto desinformado. Em outubro de 1965 vi, em Roma, o funcionamento do Concílio Vaticano II e pude participar, graças a um parente bispo, de uma bênção apostólica de Paulo VI.
Em julho de 1969 estava no Rio grudado em uma televisão vendo Neil Armstrong andar na lua. Presenciei no Maracanã, nas eliminatórias da Copa de 70, ao jogo Brasil 1 X Paraguai 0, em que aconteceu o seu recorde de público, quase 200 mil pessoas. Em setembro de 1973 participava de um congresso em Lima quando derrubaram Allende. Não tive dúvidas, fui à Santiago do Chile ver os estragos feitos à democracia e ao Palácio presidencial.
Com um grupo de amigos, me aventurei a tomar, em Estocolmo, um trem superlotado para ver o fenômeno do sol da meia-noite em Narvik, no Círculo Polar Ártico. Foi impressionante ver um dia com 24 horas de duração sem resquícios de noite. Quando Nixon foi defenestrado, em 1974, da Casa Branca veio parar com os costados em Paris onde, por coincidência e com a presença do José Rangel, ficamos em um café do Champs Elisée. Mais uma vez, em 1989, me protegia do frio outono alemão na casa de uma irmã quando caiu o Muro de Berlim, em meio a comemorações improvisadas mostrando o outro lado e o portão de Brandemburg, que já conhecera, não sem antes ser revistado por policiais orientais e farejado por cães treinados.
Tive que ir a Hong Konk exato em 1994, ano em que ela se despedia da Coroa Inglesa e a festa do Dragão mostrava a cultura, a ascendência e a vizinhança da China do outro lado das montanhas. Era visível o mal-estar dos ingleses de Hong Kong com a perda – mesmo bem negociada – de um de seus mais rentáveis negócios.
Passei uma semana em Israel em meio à Intifada e pude sentir que, pelo menos para mim, não adianta alguém pensar em solução negociada para a luta entre árabes e judeus. Tenho uma teoria meio absurda sobre a solução desse conflito. Ela se baseia na miscigenação das raças, pela proximidade e o jogo de sedução e medo que os rebeldes árabes exercem sobre as mulheres de Israel e, igualmente, o despudorado assédio dos soldados israelenses sobre as jovens dos territórios ocupados. Os filhos dessa zorra poderão gerar a paz.
Do que vi no Século XX, para mim tão rico e contraditório, é o que cumpre destacar pois contextualizado, correndo o risco de parecer cabotino, mas o silêncio sobre esses fatos poderia ser, mesmo agora, um deslize maior. Corro o risco, mas viver é correr riscos, como já se sabe.
João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/01/2001.

