VIDA DE ESTUDANTE – Diário do Nordeste

Com o andamento da vida, ainda que não se queira, voltam muitas coisas do passado. E escrevo sobretudo para jovens que andam reclamando do celular, computador, I-Pod etc. E querem carro. A coisa era diferente. Estou lembrando do meu tempo de estudante. Não existia nada disso, tampouco havia o “Google” para pesquisar. Era uma corrida louca, pois fazia, ao mesmo tempo, duas faculdades. Administração, pela manhã. Direito, à noite. Trabalhava à tarde, escrevia uma coluna diária em jornal, era correspondente de uma revista e fazia política universitária. Com as sofridas e próprias economias havia comprado um carrinho. Uma “gaforinga”, como o chamava o meu professor Parsifal Barroso, então governador do Estado, a quem tinha a ousadia de dar carona, imagine. Pois bem, esse carrinho, um Anglia, era bem conservado, apesar de velho e o grande luxo – para mim – de possuir vidros com maçanetas que os faziam subir e poder usar o banco traseiro como biblioteca ambulante. Talvez eu precise explicar que o meu primeiro carro, anterior a esse, era uma anciã camioneta Hudson, boléia de madeira, freio em uma só roda, sem vidros e apenas compatível com a minha quase liseira. O Anglia era, pois, uma evolução. Troquei-o por um Dauphine, bem menos usado, suando para pagar a volta. Quase no final do curso de Administração, resolvi criar uma empresa. Éramos eu e eu. Escolhi um pomposo nome e fui fazer pesquisas e dar consultoria. Assim é que, de um dia para a noite, me vi diretor de um curso de idiomas. Esse curso era uma franquia e o franqueado de Fortaleza havia me contratado para organizá-lo e, sem prévio aviso, sumiu. Liguei para São Paulo, contei o fato e eles responderam: fique você no lugar dele. Pense tudo isso junto na cabeça de um cristão mal entrado nos vinte. Mas, fui à luta e deu certo. No ano seguinte, passei o curso para frente e continuei a trabalhar, ao mesmo tempo em que dava aulas, sem saber de quase nada. Apesar do corre-corre, fui um razoável estudante. Terminei os cursos com boa média e um carro Gordine zero. Era a glória.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/01/2008.

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