VIDA EM GRUPO – Diário do Nordeste

De um modo geral, tentamos ser cordial, sempre procurando entender o pensamento e as idiossincrasias alheias. Ouvindo mais que falando, lembrando das datas de aniversário dos amigos mais chegados, enquanto a maioria não se toca. Procuramos, na medida das nossas imperfeições, ser solidário, discreto, presente e não nos furtar de tentar ajudar. Essa toada acima é de gente que participa de grupos. Seja associação de classe ou religiosa, clubes de serviço, social ou cultural, roda informal de amigos etc. Todos participamos de várias rodas, desde o nascer do sol. A par disso, os grupos criam, via de regra, depois de determinado tempo, uma inércia que cai em vazio existencial, só preenchido pela fofoca, visão distorcida de pessoas, transigência exagerada com alguns e intransigência com outros.
Na realidade, parece haver, quase sempre, uma espécie de inveja latente, nessas manifestações irônicas e isso só desmerece quem as faz, não as pessoas que são objeto do pseudo-chiste ou pseudo-gracejo. Creio que pessoas, tidas e havidas como maduras, não precisam desse humor candente e perverso, para manter uma roda funcionando; alimentada, muitas vezes, por bebida e carência de afetividade. Essa constatação não é nossa. Ela é pública e comum a muitos grupos. A afetividade é atitude, não é gesto encenado para o público. Não são palavras ou discursos ocos de sentimento e plenos de metáforas que traduzem um relacionamento consistente ou uma data. A atitude é aquietada e não precisa de visibilidade. Ela se basta.
Essas questões não são nossas, algumas pessoas que participam de grupos pensam assim, apenas não têm um canal ou a coragem de dizê-las e nos pedem para ser mensageiro. E as escrevemos na procura de caminho que leve grupos e pessoas que os integram, quase sempre de boa vontade, mas carentes de fraternidade, a um encontro não seja presidido apenas por mexericos e inconsequências. Brincar com o outro é uma atitude salutar, mas usar sempre uma pseudo-brincadeira como achincalhe ou disfarce de questões pessoais irresolvidas é outro caso e merece reflexão. Por que faço isso? A que isso me leva? O que quero justificar com essa minha ação?
Eu mesmo, nos grupos de que participo, não me isento de culpa, mas há exagero nessas manifestações em turmas sedimentadas e que emperram no vazio. Nada de ser reformador do mundo, muito menos analista de comportamento, somos mero jogador de palavras. Mas sempre é bom entender que a falsa alegria de alguns no denegrir, mesmo que de brincadeira, contamina o mundo real em que vivemos e a boa relação que deveremos manter, apesar de nossos defeitos estruturais, humanos que somos.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 18/02/2007.

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