VILA DAS FLORES – Jornal O Estado

Há algum tempo recebi “Vila das Flores” de presente. Levei-o para casa e, em meio ao caos que são os meus muitos livros ainda não lidos, ele se perdeu. Um dia, Carlos Macêdo, seu autor, pergunta: Já leu? Não havia lido. Agora, com um segundo exemplar, posso dizer, de cara, que Macêdo não é como ele se imagina: “um louco”. É alguém capaz de escrever com ternura, misturar gêneros e ter a ousadia de ser um autor independente neste Brasil de tão poucos leitores Todo escritor parece um ser carente, solitário, manejando a palavra como argamassa sem querer fazer tijolo, mas edificar texto que o torne real no conturbado mundo da escrita e da leitura. A leitura é um exercício de paciência para quem não tem o hábito e é uma opção rica e natural para quem sente prazer em fazê-lo. Ela pode ser até uma forma de demonstrar a capacidade humana, seus devaneios, anseios, medos e afirmações. Na introdução, o próprio Macêdo afirma: “é que Vila das Flores, mais que um lugar no mundo é uma ocorrência curiosa, dessas que não se esquece com facilidade, que permeia o dia a dia sem deixar sequer respirar”. Creio ter sido Guimarães Rosa quem disse: “é porque narrar é resistir.” Assim, Macêdo em seus dez textos, se mostra um combatente da escrita. Em “Ourivesaria” ele garimpa palavras e narra a ação e o pensar dos trabalhadores em metais, a música que reflete os pensares díspares de homens que de “cabeça baixa cantavam a sua dor, paixão, sua lembrança, cada um ignorando os outros…” Nas estórias concebidas, ele refere sobre os contatos humanos assimilados. Fala, entre outros, em “Dorinha e o Bordel” de Canuto Lucy, Rute e suas desditas. Há uma frase curta, mas intrigante: “refeita dos efeitos do veneno, continuou seu destino de sorrir com o vento”. E essa intriga ou relação com a morte parece ser forte e recorrente para Macêdo. E em meio ao seu pensar vário há tempo para a fé. Em “O Sagrado Coração” fala sobre o padre: “Essa gente ri à toa, pensava, e essa é a porta de entrada do seu coração.” Ao final, descreve, em “O Cenário”, a Vila das Flores: “…tinha a aparência de um imenso transatlântico afundando com aproximadamente trinta por cento do seu casco submerso … Bem abaixo da borda, na base de toda a extensão do casco do imenso navio tudo eram florestas…” Para concluir, direi que Carlos Macêdo parte da complexidade de análises para dizer de sua forma especial e simples o que o mundo reflete para ele.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 05/06/2009.

Sem categoria