Estava dirigindo meu carro em estreita rua da cidade, com veículos estacionados em paralelo, enquanto um jovem, conduzindo uma pick-up preta incrementada, ia à minha frente. De repente, freou bruscamente. Já desceu de punhos cerrados e saiu batendo em dois homens, bêbados e completamente fora da realidade, andavam abraçados no meio da via, atrapalhando o já conturbado trânsito.
Em questão de segundos, vi um festival de pancadaria. O jovem motorista, de camiseta cavada e tatuado em um dos braços, sentiu-se incomodado com os bêbados que, mais para lá do que para cá, tiveram a audácia de, nos seus andares cambaleantes, encostarem-se na reluzente camioneta.
Sentado estava, sentado fiquei a observar. Atônito, descobri que o vidro do para-brisa do meu carro parecia uma tela de cinema com um filme violento em versão local. A agressão do jovem motorista não ficou só nas pancadas desferidas. Quando os dois bêbados tentaram, de forma atabalhoada e até cômica, reagir, como se também atletas fossem, o rapaz tatuado correu, abriu a porta de sua camioneta e de lá retirou uma arma com a qual passou a ameaçar os “perigosos” bêbados. Felizmente, não houve tiros, pois muita gente foi juntando até que apareceram uns pedindo calma e levando os bêbados, já cheios de hematomas, para longe.
Buzinei, olhei para o agressor e, por gestos, falei que o seu carro – atravessado e de porta aberta – estava atrapalhando o trânsito. Olhou firme para mim e, talvez por minha calma, resolveu sair e me dar passagem. Tudo isso ocorreu nesta semana. Durou uns dez a quinze minutos, em pleno cair da noite na Rua dos Tabajaras, na Praia de Iracema, área turística da cidade.
Não apareceu nenhum policial, civil ou militar, tampouco os guardas azuis da autarquia do Trânsito, a AMC. Alguns turistas estrangeiros, apreensivos, ficaram longe e olhavam desconfiados. Talvez imaginassem também estar assistindo uma filmagem com cenas de violência, mas não havia nenhuma câmera em ação. Era apenas a realidade de mais um início de noite na Praia de Iracema, com seus pontos de venda de drogas, suas prostitutas nas esquinas e onde alguns bares são meros antros de pedofilia.
Não adianta construir hotéis, planejar um monumental centro de feiras e convenções, se não se cuida do básico, a segurança pública, sem a qual nada disso vale nada. Quem escapar da violência, verá.
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 07/04/2002.

