VISÕES EM DOSE DUPLA – Jornal O Estado

Deixo claro, de saída, que não sou crítico de arte. Sou apenas um escrevinhador e admirador de olho vário que procura ao longo da vida ter sempre contato com o mundo das artes. especialmente a pintura. Por tal razão é que me atrevo a escrever algo sobre o trabalho de Nicolas Nascimento, cearense, e Píer Giorgio Serralunga, italiano. São pintores calejados, conhecidos de galeristas e marchands, participaram de individuais e coletivas, careciam de um público heterogêneo como o de um shopping, onde há muita energia no ar e se misturam crianças, jovens e adultos. Universitários dividem o espaço com professores, donas de casa com trabalhadores, profissionais liberais com empresários, aposentados com militares, religiosos com ateus etc. É um micro e infinito mundo. Voltando aos dois, Nícolas e Serralunga, deve ser dito que tem formação em escolas e países diversos, artistas deste mundo de hoje em que a pintura não é propriamente um artefato bem acabado, nem se enquadra em uma só característica ou escola, como se fora algo clássico ou industrial, feito em série. Ao contrário, deixa recados nas próprias transgressões e deformações das suas figuras, cores e matizes. As pinturas expostas refletem cada uma, um dos muitos estados de ânimo dos dois pintores, fazendo surgir o que, muitas vezes, nem eles próprios sabiam ou suspeitavam. Ao observar os múltiplos quadros dessa dupla exposição, o visitante terá sentimentos e sutis respostas céticas, enternecedoras, eróticas ou instigantes. Os olhares de cada um dos dois pintores, transformados em quadros por suas telas, tintas, pincéis ou espátulas nunca serão iguais ao que vê o visitante de uma exposição. Nós, os visitantes, vemos, mas impregnamos o que pensamos enxergar com a nossa história pessoal, seja ela com ou sem preconceitos, conhecimento profundo ou raso, curta ou longa admiração pela arte. Então, mais uma vez, a obra recebe outros significados e saberes, embora passageiros, pois o efeito se esvai (ou não?) com a mudança do olhar. Nada, portanto, é o mesmo depois que se vê com vontade de procurar respostas. Elas, na verdade, estão dentro de nós. Os quadros são apenas mensagens que nos enriquecem por seus efeitos estéticos. Elas estão em visitação pública, gratuita, até o dia 15 deste mês, na Galeria Benficarte, no 2º. Piso do Shopping Benfica. Vá e leve a família. Penso que vale a pena. Não custa nada.

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 03/04/2009.

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