VOCÊ AMA? – Jornal O Estado

Mensagens e apelos em livros, filmes, jornais, mídias alternativas, rádio e televisão estão sempre louvando o amor. E isso é bom. Cada um, à sua maneira, procura demonstrar, de forma material, para a pessoa amada ser ela lembrada e, mais que isso, simboliza o afeto em presentes, coisas materiais. Assim foi, desde sempre.
A imaginação remete-me às portas dos presídios brasileiros onde, mulheres, muitas delas desprezadas, humilhadas e maltratadas, esquecem tudo isso e estão, nos dias de visita, levando um pouco do que têm para demonstrar, da forma que podem e sabem, o seu amor. Submetem-se a vexames de revistas ultrajantes, mas conseguem sempre levar o que a pessoa amada lhes pediu: comida, roupa, droga, uma pequena serra, dinheiro etc. Talvez esses atos não sejam submissões. Podem ser sentimentos fortes, aquela vontade de proteger, de estar junto, de ajudar, de dizer: apesar de teus defeitos eu te perdoo e te amo. Seria esse o amor verdadeiro? Ou mera submissão?
Deixando os presídios de lado e voltando ao início do século passado, quando nada era permitido e já se fazia de tudo, deparo-me, na História, graças a ensaio de Luzilá Gonçalves Ferreira, com uma grande e já conhecida mulher. Seu nome, Lou Andreas-Salomé, escritora alemã a arrebatar corações da maioria dos homens que cruzaram seu caminho. Por ela se apaixonaram, entre outros, Nietzsche (com toda a sua descrença), Freud (com as suas inquietações) e Rilke (com a sua caudalosa poesia).
Lou dizia: “A vida te dará poucos presentes, acredita: se queres uma vida, é preciso que a roubes”. Em outras palavras, pregava para as pessoas, os amantes, intrepidez e ousadia. Para vocês terem ideia das paixões que Lou despertava nos homens, basta citar um poema que Rainer Maria Rilke lhe dedicou:“Tu eras para mim a mais material das mulheres,/eras um amigo como são os homens,/ao olhar, eras uma mulher/e eras no mais das vezes ainda uma criança./Eras a coisa mais terna que encontrei,/eras a coisa mais dura com a qual lutei./Eras o cimo que me tinha abençoado /e te tornaste o abismo que me devorou”.
Em contrapartida, Lou disse: “Se fui tua mulher durante anos, é porque foste para mim a primeira realidade em que o corpo e o homem são indiscerníveis, fato incontestável da própria vida”.
Os exemplos paradoxais citados, em tempos diversos e pela natureza singular das pessoas envolvidas, mostram que o amor independe da classe social, razões lógicas, justificações teóricas e explicações práticas. O amor seria a capacidade de inebriar-se, de descobrir a existência do outro em tudo o que se faz, sente e deseja. O amor seria a abstração do mundo e o pensamento egoísta de que tudo gira no entorno da pessoa amada por causa de quem vivemos. Para os que ainda se sentem presos a alguém, apesar do fim da relação, é bom ouvir o que dizia Lou, já aos 76 anos, na obra “Nos Cadernos íntimos dos últimos anos”: “Após minha separação de um parceiro, sua ausência nada retirava ao amor que eu lhe tinha, mas lhe dava uma importância nova, pois ele escapava assim aos exageros deformadores que o amor superpunha à sua individualidade. Ele retomava sua individualidade própria e meu olhar sereno, sem colocar condições nem exigências”.
Hoje, tempos outros, como você imagina o amor?

João Soares Neto,
escritor
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 27/08/2010.

Sem categoria