Um domingo desses fui dar uma volta de carro e me encontrei no passado, repassando os locais em que vivi quando menino. Aprendi a não jogar bola na Rua Major Facundo, ali perto da antiga Associação Cultural Franco-Brasileira, chegando na Praça do Carmo. Eram poucos passos para as aulas no Colégio Farias Brito, na Duque de Caxias, alguns mais para o Instituto Brasil Estados Unidos na Rua Solon Pinheiro. Lá, no mesmo quarteirão, olhando para a Cidade da Criança, existiam a Biblioteca Pública e o Conservatório Henrique Jorge, importantes para a minha formação complementar. No Ibeu, aprendi o pouco de inglês que me salva por aí, na Biblioteca foi onde ficava a ler jornais, pedir livros emprestados e, no seu subsolo, encadernar os meus diários que foram deslembrando o tempo real. Na escola de música, eu, ouças cegas, ficava prestando atenção aos músicos e tentava ir aprimorando-as, o que não consegui.
Depois moramos rapidamente na Visconde do Rio Branco, mas assentamos de verdade no Bairro de Fátima então começando a ser habitado, a partir da Igreja que abre as portas centrais para a Mons. Otávio de Castro, a rua da minha juventude. A casa que meu pai fizera era “funcional”, algo moderno, tal como no filme “Meu Tio” do Jacques Tati. Nela a varanda era coberta de concreto, a garagem fechava tipo alçapão, acionada por caixa de cimento que levantava e baixava o portão por um cabo de aço. Foi lá que reuni jovens e formei o Girafa, o pomposo Grupo de Instrução e Recreação Atlética de Fátima. Ocupamos um terreno e formamos times de vôlei. Havia festas mis, permutávamos livros e fazíamos a queima do Judas, não sem antes realizar debate sobre sua culpa ou sina. Era tempo em que jovens das famílias Rosa, Furtado, Carneiro Girão, Machado, Pinheiro, Holanda, além da nossa, não pensavam em drogas, sem ser caretas, mas namoravam em meio a santos amassos. Já trabalhando, resolvi fazer um quarto só para mim no quintal de casa e comprar telefone e um ar-condicionado usado. Parecia a chave da liberdade, mais importante que o pão, já dizia Nelson Rodrigues.
João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO DIÁRIO DO NORDESTE EM 27/05/2007.

