ZÉ FLÁVIO, O PAI DAS MUDANÇAS – Jornal O Estado

Há cerca de três semanas conversei, por algumas vezes, com Zé Flávio. Expliquei para ele a ideia “Gente Que Conta” em que entrevisto pessoas que com histórias para contar, entrelaçadas com as próprias vidas. Ele topou ser entrevistado, esbocei o questionário, mas não deu. Ele, já alquebrado, não resistiu. Hoje, é História.
José Flávio Costa Lima nasceu em 1921 às margens do Rio Jaguaribe, na cidade de Aracati, de onde partem os ventos que amenizam a temperatura de Fortaleza. Era o primeiro filho homem de um casal que tinha gerado quatro filhas mulheres. Seus pais, Alexanzito e Egisa, provinham de troncos frondosos que se enraizaram e, juntos, formaram uma nova estirpe. E o menino cresceu – ou pensava demais – para ficar no Aracati e veio estudar na capital. Anos depois, faz vestibular para direito em Fortaleza, ainda brejeira e pachorrenta, cursou dois anos e seguiu para a Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou. Era a eterna necessidade de ares mais plenos, da não aceitação da mesmice, da descoberta do que imaginava existir além do que seus olhos viam e onde o corpo pisava. Estava na plenitude da 2a. Guerra Mundial. Quem sabe, tenha pensado em se alistar como voluntário ou ir lutar na Itália. Esse conflito, que abalou o mundo, certamente foi basilar para a sua formação democrática, entender os dissensos, pensar na carreira política de seu pai, Alexanzito, prefeito e deputado estadual.
A guerra acaba. Diploma na parede e muitas ideias na cabeça. Ficar em São Paulo, a cidade grande que o acolhera ou voltar para o Ceará? Casar com uma paulista? Decide voltar, mas havia surgido D. Hebe em sua vida e, com ela, a alegria da chegada gradativa de Alexandre, Valéria, Urbano e Artur, seus filhos. No Ceará, encara a realidade como um “Costa Lima” do Aracati e procura centrar-se nos negócios da família de exportação e importação. De repente, ou lentamente, vai surgindo o germe da política classista em seu caminho e se viu engolfado na realidade cearense. O que realmente aconteceu nesses idos da década de 50, quando Vargas se suicidou e Juscelino ascende à vida pública nacional, teve ter sido o aflorar do atavismo paterno, doublé de empresário e político. E a política de verdade, a partidária, misturou-se ao seu sangue de empresário. Corria o tempo da União Democrática Nacional- UDN, do Partido Social Democrático-PSD e do Partido Trabalhista Brasileiro – PTB. E foi com emoção e razão que se deixou enredar e não saberia dizer se isso alavancou ou prejudicou seus negócios.
O pouco que sei é que foi secretário de estado da indústria e comércio, se fez bravo deputado federal por dois mandatos, lutou pela institucionalização, efervescência e equanimidade da Sudene e atou-se à política classista, sendo um dos sérios presidentes da Federação das Indústrias do Ceará, administrando-a por nove anos, ao mesmo tempo em que firmava posições sólidas na Confederação Nacional da Indústria. E aí, de seu pensar criativo e destemor, fez ressurgir o Centro Industrial do Ceará, CIC, que, por seus membros mais jovens e inquietos, modificou o panorama político do Estado, de forma irreversível, fazendo eclodir “o governo das mudanças”. A esse homem, espécie de Dílson Funaro cearense, devem a nossa indústria e a história política prestar reverência, por sua trajetória, inteligência aguçada e sentimento de que futuro não se espera, se planta com trabalho, decisão, inovação e capacidade.

João Soares Neto,
cronista
CRÔNICA PUBLICADA NO JORNAL O ESTADO EM 08/12/2006.

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